30/12/2010

Poema Bobo

Vem cá! vem sim,
que eu te enrosco em mim,
que eu dou um nó com meu pé no seu
que eu te falo feito homem louco de sede: Vem cá!

Que eu te pego pelos cabelos
que a gente se afoga em beijos
que a gente naufraga nas horas
que a gente troca exageros
E eu até te escrevo um poema banal
com as rimas mais tolas
e jogo uma flor no seu quintal

Que você me fale absurdos:
que nem sente saudades
que a gente não dá
mas vem;
Vem cá!

28/12/2010

E agora, Sol?

-Olha... O Sol está raiando.

Falou isso de tal modo que parecia errado o sol raiar;
E era errado mesmo.

Amanhecer era absurdo depois de uma noite onde não existiu o tempo
Era contra as regras do nosso mundinho sem regras

Era um sistema solar inteiro contra nós

26/12/2010

C&C

Se há uma saída de emergência
também há uma entrada de emergência.

Tenho muitas portas

e janelas também

(fica à gosto da invasora;
invasora permitida, diga-se de passagem)

Sou quase uma loja de Casa & Construção

22/12/2010

Brinquedos Quebram Logo

Dei-lhe uma porta para o meu mundo inteiro, mas pegou a chave, que era uma fina agulha, e a jogou no palheiro de sua mente sinuosa.

Depois tacou fogo no palheiro tentando achar a agulha-chave.

A chave era de plástico.

A porta não.

04/12/2010

Quem É Você Seu Moço ?

Do impacto eu sou o impacto.

Do nó eu sou a curva do laço.

Dos caminhos a encruzilhada.

01/12/2010

Oração

Não, Deus, eu não consigo me machucar mais.

Cansei de toda essa brincadeira de liberdade. É sério, Deus, não ria! Não me machuco e nem escrevo mais sobre essas bobagens de corações re-remendados.

Deus! Sou livre, mas e aí? Ainda outro dia Johnny Cash conversava comigo: Liberdade não é nada... Prisão é andar sozinho pelo mundo.

Deus, será que eu fiquei duro ou as pessoas que perderam a coragem?

Vou deixar o mundo (pelo o menos o meu) em paz. Como diria o velho Drummond: “Não faças versos sobre acontecimentos.” “Não dramatizes, não invoques, não indagues. Não percas tempo em mentir.”

Deus, você já leu Drummond?

E agora, Deus?

19/11/2010

Liberdade a Dois

 
Liberdade a dois é um estado de espíritos; namoro é contrato formal, chato, cheio das quebras.
Liberdade a dois é ter o direito de rir das próprias idiotices; é lamber a amargura que o outro lhe derrama e dar um sorriso sacana; é poder ser e deixar o outro ser sem medo; é se deliciar nos passos do outro, como uma dança: Apenas movimentos e sensações, sem ganhador nem perdedor.

Liberdade a dois é, sobretudo, olhar para o outro como se ele fosse sempre uma libertação e nunca uma prisão voluntária. Vemos tantos relacionamentos baseados na lei do controle, na lei de quem poda mais o outro, de quem se acorrenta mais.

Liberdade a dois é como se fossemos estradas infinitas que se cruzam bem no ponto do amor. Estradas que podem se distanciar o quanto quiserem, mas sempre vão ser uma só encruzilhada.

16/11/2010

Poeta

poeta (é)
(latim poeta, -ae)
adj. s. m.
1. Que ou aquele que sente e sabe que sente
2. Aquele que consegue se encharcar facilmente na essência de todas as coisas.
3. Que ou quem devora emoções e sensações.
4. Pop. Vagabundo.
Feminino: poetisa.

12/11/2010

Do Garoto Que Não Sabia Se Apaixonar


Não era um garoto da cidade. Vinha do campo, dos chãos de terra batida para os chãos de terra abatida. Em menos de dois meses pode perceber que tudo era muito avassalador na cadência da cidade, principalmente as garotas.
Quantas paixões! Elas estouravam como as espinhas recém chegadas em seu rosto tão jovem, tão fresco. As espinhas ele podia entender e já nem se assustava quando apareciam, mas as paixões... Ah! Isso ele não podia conceber nem teorizar.
Começava com uma ansiedade que o atacava no meio da tarde, como se um mosquito vagasse dentro de seu peito. O coração parecia cavalo a galope e as mãos ficavam inquietas e suadas. Era ela, a paixão, que anunciava seus sinais. Então não olhava muito para os olhos das pessoas, pois tinha a certeza que perceberiam. Parecia tão óbvio!
Não demorava ser atacado também logo ao acordar, com a imagem daqueles dois olhos cor de tempestade na mente. Os sintomas pioravam rapidamente e então rolava de um lado para o outro da cama sem conseguir dormir. Na mesa de café da manhã seus olhos vagavam no nada e mal sentia fome.
Seria isso a paixão? Tinha que fazer algo, mas o quê? Ele já tinha visto nos filmes que o romântico se dava mal, que o mocinho era desprezado pela moça e só ganhava um beijo no final, depois de ter tomado alguns tiros. Sim, ele sabia o que tinha que ser feito, algo mais dolorido que tiro: Era entregar-se sem ceder, puxar e empurrar, dar sem dar. Como doía! Ah... Como doía!

10/11/2010

Sobre Vacinas e Olhos Acanhados

Você é uma garota toda vacinada e eu sou um cara cheio dos remendos. São diferenças sutis.
Talvez toda essa vacina e todo esse remendo sejam coisas totalmente desnecessárias. O pior é que sabemos disso – ou deveríamos.
Tuas vacinas correm no teu sangue e meus remendos são tão antiquados. Você usa relógio no pulso e eu só me perco nas horas; nas tuas horas!
Acontece que naquela noite nublada parece que havia uma parede de vidro entre nós. Adoro quebrar paredes, mas tive receio que algum estilhaço te cortasse e não queria sujar seu rosto com as mãos rasgadas. Num relance eu vi seu olhar através do vidro frio e embaçado. Teus olhos me pareceram duas portas entreabertas tão imponentes e convidativas.
Aliás, teus olhos! Que são essas duas pedras negras? Teus olhos me puxam e ao mesmo tempo me empurram. É como se estivesse bêbado no meio dos seus mares; cada olho um oceano.
Desbravar teus mares, te arrancar desse seu passado vilão com um sopro só, mas você mora tão longe! Arrancaria essa parede, abriria essas portas que são teus olhos, me sentaria à mesa de seu salão secreto e acenderia a lareira, pois os tempos andam frios.
Então não existiria mais vacina, passado ou remendo. Haveria vinho, haveria chama, haveria nós.

Andar, Andar


Eu ando por aí fingindo ter aonde ir. Ando de passo breve, como se tivesse algo importante a fazer; como se corresse atrás de um propósito real, um sonho incerto.

Ando sem destino como se fosse encontrar alguém que eu ainda não conheci. Já me sinto até um pouco atrasado... uns anos talvez.

06/11/2010

Texto Que Não Existe

Cabelos pretos, ela vem e senta em cima da minha mesa, sorrindo faceira; não me deixa escrever. Sou praticamente obrigado a largar a caneta e a folha, que voa para o chão, começo a rabiscar em sua pele com as tintas de um beijo e cada dedo vira um pincel dançando bêbado nas curvas desta fabulosa tela branca de olhos negros.
Rabisco em idiomas que não existem, com palavras que não devem ser e que nunca foram inventadas. Ela parece não se importar muito com a gravidade dos idiomas ou das palavras, pois continua com aquele sorriso meia lua e os olhos cerrados, como se imaginasse as histórias que conto no papel de seu corpo.

Literal

Ando meio literal demais esses dias:
Vejo sorrisos no rosto das moças
e acho que elas estão felizes

28/10/2010

Diário de Óculos

Tudo anda muito embaçado. Óculos são uma farsa
mesmo de óculos não consigo entender o que as pessoas dizem
quero ver de verdade
(nem consigo mais rimar; malditos óculos)

Eu tiro os óculos no meio da rua só pra ver se te confundo com alguém.
assim engano minhas retinas por três segundos
e meio

Um óculos jogado no vão da cama, lençol amarrotado com dois tipos de suor. O amor não usa óculos.

Não
acredite
em
óculos.

27/10/2010

Menina Colorida

Ela tem cabelos castanhos tão negros, tem olhos castanhos tão pretos!
Dá risada, diz que não vejo as cores direito! Como posso ver suas cores se sempre estou distraído demais buscando não-sei-o-quê no céu da sua boca? Como posso saber o que é castanho e o que é preto se estou ocupado demais caminhando nas deliciosas trilhas da sua alma?
Eu – sim, admito – eu já pesquei no céu da sua boca. Eu – sim, eu mesmo – já quis me perder nas tuas paragens, sentar na beira das suas estradas e observar as paisagens da sua vida, do seu jeito de ser.
Mas prometo que presto mais atenção nas cores!

19/10/2010

Previsão do Tempo

Semana de tempo feio, talvez chova no sábado.
Será que chove?
Teus olhos estão sempre tão nublados.
Será que chovem?

Se você chover em mim eu juro
que não tenho guarda chuva;
que não tenho galochas;
que ando árido demais esses dias

12/10/2010

Como Destruir Boas Lembranças

Não sei se tudo aquilo era mesmo felicidade ou apenas um misto de amargura com esperança.

27/09/2010

Blues Sem Saída

                                                   Fonte da Imagem: http://br.olhares.com/o_homem_de_chapeu_foto1899310.html

Talvez eu seja mesmo um Blues; Por isso as ruas tão sujas, as pessoas tão surreais e o café sempre mais frio do que o normal, rodando no copo, enquanto olho pela janela.
As horas sempre demoradas, os caminhos confortáveis sempre os mais escuros e aquele gingado incerto no andar.  Olhos meio cerrados numa noite sem guarda-chuva, pensamentos nublados; mãos no bolso.
Me falam nos rápidos esbarrões pela rua:

-Cara, você nunca dorme?

Mas mesmo que eu dormisse, mesmo que eu cantasse Be-Bop-A-Lula ou O Samba do Arnesto; ainda assim eu seria um Blues.
Um Blues sem saída.

11/09/2010

Diário de Ilha e Biscoitos

Os biscoitos que ela fez ontem ainda estão no forno. Duros e meio antipáticos, mas nada que um bom vinho barato não resolva. O vinho dissolve muitas coisas, vocês sabem.

Estava tocando um blues, todo chiado de vitrola, aquele blues de voz rouca, e aí me perguntei: Como sair desta pequena ilha que eu mesmo – não sei como – me enfiei?

Até parece que eu tenho só dois metros de espaço; um passo pra cá, outro pra lá e vice versa eterno, como um relógio tic, tac, tic, etc.

Outro dia fazia frio e eu decidi sair da ilha. Saí sozinho, quinta-feira deserta.  Me sinto mais sozinho num bairro habitado por fantasmas do que num quarto vazio.

Penso que um dia você e seus cabelos cheirosos podem chegar aqui com marreta e quebrar meu relógio, quebrar meus dois metros mentais, quebrar esses biscoitos tão duros que você faz.

03/09/2010

Histórias Tristes de Violão

I
Um garoto e um violão. Notas abafadas, a vida é sufocada nos barracos.  Até que ele está pegando bem. Uma tarde quente de sol e as cordas arrebentam por causa do fogo. Não há pinho que resista a um incêndio de tais proporções.

II
Volta na rua escura. “Será sempre assim, violão?” – Pergunta difícil. As mãos calejadas de tocar: Ele só três cordas tem. Como alguém toca só de três cordas? – Pergunta o doutor em música; Tocaria até com meia corda, doutor. Pra ele é fácil; toca a vida com só uma refeição ao dia.

III
Um violão quebrado em cima da mãe. Um pai bêbado. A menina que ganhou o violão encolhida treme, como um lá menor. Difícil fazer os acordes, os dedos doem. Difícil afinar o violão quando sua mãe vive chorando pelos cantos.

29/08/2010

Gramática da Alma


Por que estes sorrisos velados e estas faces rosadas e estes cinismos cítricos e essa acidez sensual e estes desprezos estratégicos e estas aparições programadas se nem ao menos sabe se gosto de bacon ou não?
Ela só sabe que eu uso a conjunção aditiva “e” ao invés de vírgulas (em momentos nervosos) e que escrevo em fonte Arial tamanho 12. Minha alma não é Arial; não é tamanho doze; não tem conjunção aditiva; não tem “e”. Nem gramática a coitada da alma tem.
Ah, se tivesse! Pela Gramática da Alma esta mulher seria um erro de ortografia épico, um pleonasmo irritante, uma palavra de baixo calão ou, no máximo, um parêntese desnecessário. A alma –Que seria doutora letrada nas paragens da afeição– riscaria um “X” bem vermelho no meio de sua testa; Atestaria: Esta mulher não.
Não existe gramática para as nossas almas. Talvez por isso esta e tantas outras desconhecidas passem o resto da vida com homens sem-sal, se queixando para as amigas. Eu talvez continue sempre com essas pessoas mal conjugadas, como verbos sem concordância; almas dissonantes nas minhas frases tortas de afeição, de carinho gratuito.

02/08/2010

A Gente

A gente não é agente. Ser agente da própria vida é agir. A gente é reagente. Quem só reage nunca age; coage, no máximo. Então, ajamos! Seremos os ventos que balançam folhas e cabelos, casas e – por sorte – corações.

25/07/2010

Mágoas Mortas

Entrou com pés silenciosos, pediu perdão e chorou. Saiu vinte e tantas toneladas mais leve. O irmão continuou calado, de olhos fechados, estirado no balcão gélido. Afinal, antes tarde do que nunca.

20/07/2010

Exagero

Falo gota
Ela diz oceano
Falo cheiro
Ela diz França
Falo árvore
Ela diz ecossistema complexo
Falo estrela
Ela diz universo infinito
Falo uma letra
Ela fala Literatura Anglo-Saxônica
Falo um acorde
Ela diz orquestra filarmônica
Falo um detalhe
Ela fala todos eles
Falo azar
Ela diz amor
Falo sorte
Ela diz amor
Falo amor

... e então ela não diz nada.

Recado em Papel de Pele

Numa segunda-feira de sol você rabiscou toda minha pele como um guardanapo atacado por ansiedade súbita. Traçou milhares de linhas incertas, escreveu sonhos de criança, riscou desenhos disformes e multifacetados, fez o jogo-da-velha, listou teus desejos, pintou três setes e fez até desenho de casinha.
Num domingo de frio conseguiu borrar meu papel-de-pele com lágrimas mais ou menos salgadas e um tanto que esquizofrênicas (não me atreveria a dizer falsas). Diluiu-se na minha frente e apagaram-se as linhas da minha mão. Mas a mão não se apaga, sabes disso.
Tenho tinta de sobra e papel-de-pele é o que não me falta e a mão rabisca, pinta e borda. Também tece aqui um último viva:
Saúdo-te, ó atriz principal dos meus rascunhos!

01/07/2010

Uma Velha Conhecida dos Homens



Muito se fala sobre a morte desde qualquer tempo, pois ela nasce com a vida e acaba por si só, basta-se. Toda família conhece o seu mecanismo, os ritos e passagens e etc, etc, etc. Deixemos as entrelinhas para os filósofos, cientistas, monges e avôs. Cabe-me apenas o relato de como conheci esta senhora tão ambígua. Censurem-me caso me exceda nos ramos dos bons homens citados acima.
O coração do Tio Marcos parou sem avisos prévios numa certa manhã de segunda-feira, seguindo o exemplo do dono, preguiçoso profissional. O velório foi até que animado se comparado a tantos outros que vi posteriormente. Vários tios lembraram-se das glórias do “Marcão”, como quando cantava o hino da Itália bêbado em cima da mesa, a piada do dedo quebrado, a mágica do papelzinho e tantos outros feitos quase heróicos.
Eu não podia entender toda aquela choradeira das mulheres da família e minha mãe que se mostrava tão pálida e sentimental. Também fiquei confuso com os trajes de garçom que os homens usavam. A mente de uma criança tende a ver fantasia em tudo e mais que isso: Crianças extraem conhecimento de qualquer situação, habilidade que é esquecida com o passar dos anos.
Conseguia olhar a cena como se fosse algo belo, misterioso e engraçado, tudo bem ao estilo do meu falecido tio. Pensei estar em alguma peça de teatro ou brincadeira de televisão; O tio Marcão deitado ali? Ah! Só podia estar tramando alguma e eu me revirava em pensamentos tentando adivinhar a surpresa. Fuçando em pensamentos tolos achei um que se destacou: A morte. Um tanto mais crua que as de desenhos animados e livros de história, mas ainda sim a própria. Num súbito tomei conhecimento de tudo: Meu tio morrera.
Primeiro vem surpresa e então a emoção. O coração tenta gritar “Mentira!” bem ao modo de criança contrariada, que tenta impedir uma verdade iminente, inevitável. As lágrimas rolam, as pernas bambeiam e o lábio treme. Era aquele mesmo sentimento de quando eu fazia algo que vinha a me arrepender ou magoar alguém, só que muito mais forte. Era tristeza misturada com saudades ainda não sentida. Quantas descobertas em tão poucos minutos! Agarrei-me nas pernas de meu pai, com medo que acontecesse com ele também.
Mesmo emocionado fiquei ainda meditando, tentando calar o coração para entender tudo melhor. Num estalo minha jovem mente se iluminou e tirei dali uma explicação confortável: Não era meu tio ali! Não era e ponto. Quis gritar isso a todos, mas a voz ficava presa no peito. Claro que não podia ser ele! Como não viam isso? Se fosse o Tio Marcão, provavelmente estaria dançando com uma garrafa de cerveja na mão, de sorriso fácil e bêbado, contando piadas obscenas e engraçadas para os outros tios. Ele não estava ali, sabia disso com toda a sábia certeza de cinco anos de idade.
Será mesmo que era aquilo a morte? Sim, aquela morte tão chorada e dolorida que eu ouvia falar? Eu com tão poucos anos de idade já desconfiava da morte e seus desígnios. Parecia-me tão inofensiva e pacífica! Além do mais era cheia de flores e pessoas. Mais parecia uma festa. Como poderia aquilo ser trágico? Até hoje me falta essa resposta.

11/06/2010

Teto de Vinho


Ela dançava em cima da lataria de um carro azul abandonado naquele campo. Os cabelos mais ou menos presos fugiam do elástico com os pulos e giros dos braços e sorrisos abertos. Olhos virados e a sensação de que o mundo é um cisco aos seus pés! Há quanto tempo que eu já não tenho dezessete anos e duas garrafas de vinho em uma noite fria quase estrelada? Igual “aquelas de filme”, como diria ela.
Com o dedo gelado me apontou alguma estrela que não existia e exclamou “-Que linda!” numa voz mole e rouca. Falávamos muitos sobre as coisas dos céus. Entre uma e outra golada eu também olhava fascinado pro céu cinza e via constelações inteiras sem saber se estava fingindo ou não. Éramos jovens, portanto capazes de ver estrelas imaginárias feitas de vinho ou paixão; tanto faz.

-Essas luzes bonitas na grama, elas existem?
-Sim, acho. São vaga-lumes.
-E o que fazem eles aqui?
-Cantam e, hm, iluminam e dançam.
-Sabia!
-O quê?
-Teus olhos são vaga-lumes!

Que risadas bêbadas e amáveis! Que noite! Dividíamos um único cachecol, tão enlaçados estávamos. As calças jeans chiavam juntas, baixinho e ora ou outra o velho capô estalava. A lua também estava ébria e dançava transfigurada no céu. Hoje penso que os vaga-lumes são realmente luzes que vagam por aí, justamente como esse par de olhos que conheci.

06/06/2010

Se Não Senão

se você é viajante
se toca ou dirige
se contesta e protesta
se parte corações
se toca violino
se mata moscas
se gosta do céu
se escreve contos
se sonha ou inveja
se conta o tempo
se veste de seda
se não come bacon
se compõe poemas
se fala ao público
se joga dados
se trabalha e estuda
se canta canções
se morre e mata
se tem bons livros
se gosta de azul
se pinta paredes
se veste couro
se conta piadas
se destaca em algo
se alcança um prêmio
se dança valsas

nada disso importa
                                                                   [senão amar]
se não amar

16/05/2010

Mulher e Tarde Dormindo Nuas


Na janela do quarto onde é sempre outono, cabelos pretos estão esparramados na cama macia. São cachos olorosos que parecem dançar junto à respiração suave da moça adormecida. O relógio está parado, estático, sem tique e sem taque e a cama se esforça para não ranger. O gato foi paquerar lá longe e o cão adormeceu. Ninguém quer e ninguém pode acordá-la, pois seria cruel, um ultraje; seria pecado!
O rosto é fresco e enrubescido como um fim de tarde envergonhado. Possui traços que entorpeceriam até mesmo uma vista bruta, calejada e infeliz. Ela, sem saber, faz com que se queira atravessar uma tarde inteira vendo-a dormir.  Assim age o sol enquanto vai indo se por, tentando contemplar o espetáculo com um soslaio atrevido. Não por conta das formas ou curvas, do hálito quente ou das mãos perfumadas, mas sim pela cena retratada ali; parece até um quadro  barroco, vivo.
Alonga-se toda de modo preguiçoso ainda dormindo. Passa os pés e pernas sob o lençol creme que chia e estremece em contato com a pele branda, bem como as folhas que farfalham lá fora; Invejosas que tentam acordá-la! Está nua sim, é bem verdade; porém mesmo despida não transparece vulgaridade ou qualquer vestígio humano. Daí a inveja das folhas: Não é nu banal que acontece aos montes; é nobre, é nu de floresta virgem.
Então esboça um sorriso quase invisível, misto de devaneio ou fantasia e se estica inteira outra vez. Ameaça abrir os olhos com um bocejo longo e mudo, mas logo desiste com uma preguiça contagiante e esplêndida. Acomoda o corpo no lençol desarranjado e os cabelos escuros pendem da borda da cama, como se fossem derramar-se por sobre o chão. Ah! Como dorme esta mulher!
Agora sei por que nessa janela é sempre outono: Nunca teve coragem de ir embora. Com todos estes pensamentos em mente, termino de escrever o bilhete, então o leio mais uma vez e antes de colocá-lo ao lado do travesseiro as palavras dobram seu peso:
“...mas não sou outono não, mulher! Quando acordar estarei indo para um longe incerto, com olhar tão afrouxado quanto agora; Só que não verei mais tua flora de rasas relvas ou os campos de trigo de tuas costas; nem mesmo os montes rosados que são teus seios. Só verei a vida crua tão nua quanto você, rolando pelos trilhos, passando dolorosa e agradavelmente pela janela do trem.”

04/05/2010

As Bolsas das Mulheres Nubladas


Ela descia a rua cinza e era tão cinza que até me parecia um blues; Toda nublada e com perfume Avec não-sei-o-quê.
-Ei! ei, que leva aí em bolsa tão grande, garota? Mundos inteiros? Mundos machucam, você sabe; Tem até os olhos marejados! Se você correr o salto te machuca o pé, sabes disso, menina!
E me responderia, talvez com um quase sorriso; talvez sem falar nada:
-Levo mil e poucas desculpas esfarrapadas e rasgadas de amor, batom, algumas dúzias de sorrisos indecifráveis e um pequeno bichinho de pelúcia gasto por lembranças.

Ah, claro! Será por isso que as mulheres usam bolsas tão grandes?

27/04/2010

Cartão de Feliz-Despedida


 
      Cartões de aniversário soam como despedidas. E as despedidas se amontoam na caixa empoeirada em cima do meu velho armário. Tão empoeirada quanto eu, que gasto por todos esses 86 anos de cartões lhes escrevo este último.
       O espaço da minha caixa de sapatos já se acabou, como o curto espaço da vida já também não me cabe assim, com tanta idade. Portanto, meus amores, só me resta espaço para esta última despedida em belo cartão de aniversário!


       Adeus, meus amores, adeus.


Foi-se encontrado o cartão cuidadosamente colocado ao lado do copo d’água no criado mudo. A mão que o escrevera já não era mais a mesma: Mesmo embaixo do quente cobertor lhe faltava calor; havia lhe escapado a força da vida.
Neste momento algumas lágrimas quentes caíram sob o assoalho de madeira do quarto. Uma brisa fresca e breve balançou as folhas do jardim, que estalaram e chiaram baixinho, compadecidas.

25/04/2010

Sobre o Seu Vizinho Amargo e Muitos Outros

Vê, estamos aí andando pelo mundo, com a oportunidade constante de conhecer e trocar experiências com pessoas exclusivas a cada esquina, a cada fila de cada banco. A cada dez passos pessoas inexploradas e universos inteiros que anseiam por descobrir e serem descobertos.
Hoje em dia, principalmente por conta do imediatismo da internet, tem-se concretizado uma nova maneira de ser mimado, que é o desinteresse imediato pelas pessoas e pela essência inexplorada que se esconde ali, atrás dos olhos do ‘seu José’, porteiro da empresa, que há vinte anos sente que não existe pois ninguém o vê e ninguém quer ser olhado por ele; por isso abaixa a cabeça.
Não entendo por que o Brasil, um país de tantas cores, calores e culturas, conserva essa atitude tipicamente européia de empinar o nariz, pisar em tudo quanto é gente que considera inferior, maltratar o garçom, desprezar o porteiro do prédio e gemer sempre um “bom dia” penoso, sofrido.
O século XXI é tido como o século da comunicação. Temos a internet numa expansão absurda, a televisão dentro das ocas indígenas e tudo o mais. Eis o ponto: O homem, com toda sua parafernália tecnológica consegue usar isso contra si mesmo, tornando-se cada vez mais incomunicável.
No ônibus todos vidrados nos jogos e aplicativos dos celulares, ouvidos enfiados no fone. Completamente imersos num mundo construído pela própria visão curta e mimada. O mundo e as pessoas estão lá fora, despercebidos e sabotados pelo comodismo do fulano.
Nas escolas as crianças da quarta série se isolam nos cantos para ‘trocar informações’ via celulares “iTouch”. Aprendem desde cedo a arte penosa de ser solitário mesmo rodeado de gente. Gente que nunca vai poder conhecer, por que, sabe como é, é perigoso.
Outro dia um amigo me disse: Escreva sobre algo valioso. Pois quer coisa mais valiosa que a nossa própria pessoa, que construímos dia a dia, com cada palavra, cada gesto? É pena que as pessoas costumem ignorar este fato. Focando-se somente nas construções materiais, acabam ficando com a personalidade rudimentar, fraca.
Imagina se a mania de ser despretensiosamente sincero, de cantarolar pela rua, de não ter medo de olhar e ser olhado pega! Ah, aposto que o homem ia arrumar problema nisso também!

09/04/2010

As Mulheres de Pedra

Do abismo dos lábios rachados em pedra – pedra grossa e gasta pelo vento – vertiginosamente palavras de amor e ódio, entrelaçadas em linha torta, pendem e se derramam, formando ruínas de uma cidade inteira.
As palavras são pequenos pedregulhos que rolam pelo desfiladeiro de seios polidos, feitos de quartzo rosa e afeto - afeto que só uma mulher sabe possuir. Continuam rolando pelas coxas feitas de opala e escorrem pelas canelas de marfim e prata.
Elas descem, as palavras, manchadas de batom vermelho-sangue-pisado, aos pulos atingem minha alma nua, rachando-a em pedaços, como uma fruta madura que recebe tiros infantis e impensados de estilingue, em alguma tarde quente de domingo.
Igualmente numa tarde quente, eu andava pelas ruínas da cidade das mulheres de pedra, perdido e enlaçado pelos ares doces do lugar – ares doces como hálito de mulher.
Avistei algumas mulheres de pedra que ali repousavam; umas tranqüilas, de delicadeza rústica e imutável e outras com olhar leviano, quase desdenhoso e muito sedutor. Feições que ficaram eternamente esculpidas nas faces pedregosas.
O sol a pino fazia a essência feminina do local dissolver-se e evaporar em um suave incenso que dançava no ar, me deixando ébrio e um pouco tonto.
Teria chegado eu nessas ruínas de pedra e palavras com os meus próprios pés? Ou tais ruínas ergueram-se sorrateiramente à minha volta sem que eu percebesse?
Ah! Como são misteriosas as mulheres e os seus feitos!

22/02/2010

Carta do Fundo do Poço


Quando se está no fundo do poço, cada vez se enterrando mais, cave.
Cave o poço até chegar do outro lado do mundo.
Se o seu mundo já se tornou insustentável, se dirija ao poço mais próximo
Cave o poço rápido até chegar do outro lado do mundo.
Se todas as pessoas já lhe parecem só uma massa disforme, frias (quem sabe mortas)
Cave o poço com força até chegar do outro lado do mundo.
Quando olhar pro céu e para as estrelas e não se sentir parte deles
Cave o poço esperançoso até chegar do outro lado do mundo.
Só nunca se esqueça de cavar o poço
Rápido, com força e esperançoso de que chegará do outro lado do mundo.

14/02/2010

Olhos-Café

Às vezes, lá pelas cinco e quarenta da tarde, eu olho pro café na mesa, ouvindo o tempo passar através do tic tac do relógio da cozinha. Fico ali parado por alguns instantes, me perguntando se é o café que está esfriando ou eu.
Quando chego a alguma conclusão mais ou menos aceitável o café já esfriou. Daí me faço de desentendido e bebo mesmo assim. Talvez para não me sentir culpado novamente, como se isso fosse um pedido de desculpas.
Isso tudo por causa de uns olhos cor de café. Olhos esses que esfriaram diante dos meus, enquanto eu, amuado em algum beco qualquer da minha mente egoísta, pensava no que fazer, no que falar, no que sentir.  
Ah! Quantos olhos já esfriaram! Quantos!

07/02/2010

Passado Presente

Existem lembranças tão fundas no tempo, tão distantes, que lembrar delas é como tentar lembrar de um sonho envelhecido numa noite quente; Os fatos desconexos, sensações singulares jogadas no ar, flashs de cenas que nem sabemos se aconteceram ou não.
Quando se tenta acessar forçosamente alguma memória antiga os fatos se confundem, como se a mente estivesse com ressaca de seu passado. Situações se misturam e é muito mais fácil julgar situações e pessoas com os nossos preceitos e preconceitos limitados. Daí muitos problemas e arrependimentos surgem.
Pensa-se que o passado fica lá, em seu próprio tempo, parado; Até chegam a dizer que águas passadas não movem moinho. Acreditar nisso é um perigo. O passado é um garoto ligeiro, que tem pés que te seguem sem barulho e quando olhar para trás para tentar vê-lo, ele se enterrará no chão para não se notado.
O passado é mais presente do que se pode imaginar e muda todos os dias, pois está dentro de cada música, símbolo, gesto, esquina, olhar, cheiro, livro, cor, café, sol, lua, dança, conflito, carinho e de cada amor. E sempre aparece de forma inesperada.
Pode-se sim mudar o passado: basta saber de que ângulo olha-lo e quando deparar-se com um ódio ou mágoa que estava enterrado, fazer uma grande reverência e tentar recomeçar de pé direito com o próprio passado presente.

02/02/2010

Sobre Tolices Importantes

Ainda posso me lembrar de um tempo onde qualquer hora do dia era fim de tarde com cheiro de café e bolo de fubá fresquinho.
Tudo girava em torno de coisas tolas tão importantes! Já se perguntou alguma vez o que estamos fazendo com nossas vidas? Eu disse NOSSAS vidas! Parece que esquecemos de sentir, cheirar, parar para olhar, parar para viver algo e se surpreender. Nada disso acontece mais de forma natural.
E por que não nos surpreendemos, nem sentimos, nem vivemos, nem cheiramos? Por que esperamos demais, acomodados em expectativas que já vem enlatadas e totalmente fabricadas, com os conservantes da mais pura esquizofrenia social; Presos à valores ridículos e insanos, que nem temos tempo de repensar, pois não se pode enxergar azul num mundo só de amarelo.
Vivemos no piloto automático sempre, fazendo só "o que deve ser feito", o que dá orgulho à sua família ou ao seu ciclo social ridículo e limitado, só para satisfazer essas expectativas pré-fabricadas e prontas para o consumo.
Nesse ponto já se esquece que nosso coração também tem voz, que podemos abandonar o caminho trilhado à qualquer momento, sem dever nada a ninguém e sem ater ao orgulho, que é um valor que destrói muitas almas.
Como disse a poetisa: "Lúcidos? São poucos" Céus! Vejam quantos sonâmbulos andam nas calçadas; quantos mortos vivos dirigem seus veículos do ano; Veja, veja com horror as pessoas de terno que correm apressadas pelas ruas, como quem corre num pesadelo, sem saber do que!
Conseguiram industrializar até a vida. Já é tempo de ser lúcido. Não se submeta, acorde!

Toda Criança Deveria Saber

Era uma vez um pequeno menino feliz chamado Bob. Bob gostava de brincar e de bolo de cenoura. Bob sonhava em ser artista de cinema ou fazendeiro, pois sempre brincava de tais coisas com seus amigos.
Até que um dia Bob cresceu, vivendo e aprendendo com as coisas insanas do mundo: se desiludiu com muitos amores, comprou uma moto que foi roubada no mesmo mês, teve amigos falsos, assaltaram seus sapatos, teve filhos que passaram fome, se formou forçadamente na faculdade, enfrentou audiências e reuniões escolares dos filhos, teve seu dinheiro sugado pela receita federal, perdeu-se em meio a tanto trabalho, passou noites sem dormir preocupado com as dividas, desenvolveu uma hérnia de disco e tendinite, enfrentou filas intermináveis de hospitais públicos, começou a fumar dois maços de Free (azul) por dia, esqueceu quem era e o que sonhava, o rosto ficou cheio de rugas de exaustão e as mãos com calos de arrependimento.
Bob teve um enfarto fulminante numa quarta-feira de sol devido o stress do mundo moderno, que corroeu sua alma. O IML demorou 8 horas para chegar. Os filhos de Bob tiveram que pedir dinheiro emprestado aos parentes e vizinhos para o enterro, tendo que fazer muitas horas extras de trabalho para sanar a divida.

Fim.

Fim? Não. Essa história sempre, sempre se repete. Cuidado.

18/01/2010

Sobre Sapatos e Pessoas

Pensou:
Essas ruas são tão sujas. Sujas como meu cigarro, o asfalto quente como meu pulmão. Quantos sapatos já não se gastaram nessas ruas, procurando algo, algo que talvez nem exista? Quanto tempo já pas...

-Senhor, são cinco e dez. Senhor..?! Tem dez cents aí pra ajudar no troco?
-Nunca tenho.

Nunca tive. Nem dez cents, nem algum propósito para gastar meus sapatos; Digo, algum propósito que realmente quisesse cumprir, algo real. Se as ruas não fossem tão ásperas, os sapatos durariam mais.

-Moço, tô com fome, me ajuda aí vai, pode ser qualquer coisa..

Aliás, as pessoas são ásperas também, tão ásperas quanto as ruas. Mas pessoas ásperas fazem algo muito pior do que somente gastar sapatos; Pessoas ásperas gastam vidas, ralam sonhos e trituram pessoas inteiras mais rápido que sapatos perdidos no centro da cidade.

* * *

Mais tarde naquele dia ouviu-se a história se espalhar entre os meninos de rua, todos ouviam atentos:
-Num sei se era loco não! Só sei que eu pedi pra ele me ajudá aí ele tirou os sapato e me deu no meio da rua! Disse que agora era livre! Vai intendê!