27/06/2017

Seu Reginaldo - ou o "Jovenzinho", como era chamado

O seu Reginaldo tinha um rosto de criança, mãos de criança e morreu sem mais nem menos, justamente como morrem as criancinhas. Lembro de sua caixa de ferramentas sempre bagunçada pela escola onde trabalhou comigo por alguns meses. Logo após o enterro todos da equipe fizeram o clássico favor de nos lembrar como não passamos de pó ou "merda nenhuma". E eu não podia discordar de um sentimento tão estratificado e absoluto ali, naquela hora sensível.
Dois dias após sua morte, faltou água na escola toda e ninguém sabia o que fazer. Sendo as manutenções sua associação mais óbvia, pensamos todos em seu Reginaldo. Nós, prostrados e inúteis diante da gigante caixa d'água e suas bombas, válvulas e canos. Pensei como era superficial nosso conhecimento perante àquele homem que fazia a manutenção e em como ignoramos tantas outras camadas de uma pessoa. 
Com certeza os sonhos dele não cabiam naquela caixa d'água.

06/06/2017

Discursinho de exploração interior


Passei tanto tempo escondendo esse meu eu de todos, cantando só para mim e escrevendo para tão poucos, sendo poeta para tão poucos e frequentemente sufocado dentro de mim. Vergonha, morrendo de vergonha sempre. Arrastando sentimentos pelos rodapés das casas e falando sempre mais baixo quando esse eu que produz, canta, escreve, lê e sente vinha a tona.
Eu queria explodir num sentimento de mundo, abrir o peito em flor e gritar: Eu sou todo cor e sem contornos! Sou volúvel por dentro e trêmulo por fora. Mesmo que toda essa ânsia por arte pareça ridícula, supérflua, mentirosa, forçada, boba, clichê, exagerada, espalhafatosa, dissonante do eu que conceberam de mim - mesmo assim - eu sou isso. Eu sou isso, no mais íntimo e atômico do meu ser eu sou arte e respiro arte mesmo sendo um artista tão patético, raso e preguiçoso.
Não vejo salvação nenhuma para minha vida fora da poesia, da prosa, do cinema, da fotografia, da música, da dança, do cinema, de achar engrçado e triste aquelas crianças correndo no parquinho, de encarar o muro cinza em frente ao ponto de ônibus e ali ver uma beleza de mãos humanas que trabalharam.
Sou isso - só isso - e passei tanto tempo querendo que acreditassem em mim. Me sinto um adolescente frustrado, uma criança mal resolvida por rnão ter me mostrado antes, gritado antes - agora é tão difícil, parece que sou outro que não eu mesmo. Será que é tarde demis agora? Será que o bonde já passou? É tão trabalhoso mudar o costume e o olhar dos terceiros, tão enfadonho quanto traalhos infinitos de escritório. Se recolocar nesse mundo tão engessado, achar uma nova posição para esse antigo e vivo "eu". Mas qual escolha eu tenho?