26/03/2017

Por Favor


Eu queria realmente conseguir me conectar com todas as pessoas.

É mais fácil pegar um avião e ir pra Bahia do que conhecer o quintal do meu vizinho, os sonhos do meu vizinho e todos os medos dele. Como eu queria um momento de humanidade com alguém, de conexão pura, simples e desinteressada, não forçada: sincera e leve. Queria ter esses momentos com todas as pessoas, principalmente os mais próximos: minha família, que mesmo vivendo décadas na mesma casa, ainda me soa tão longe, tão estruturalmente distante de mim, do que eu sou.


Eu também escondi tanta coisa do que eu sou - pros meus vizinhos, meus amigos, minha família. Sempre tentando me encaixar, eu tenho escondido muito, do que eu sinto, penso e sou. Há momentos de lucidez que olho pra minha mãe, pai e irmãs e falo: eu queria muito conhecer eles todos fora dessa casca que seus olhares me colocaram e que eu vesti sem relutar. Queria me mostrar, me gritar: E É POR ISSO QUE EU ESCREVO AQUI por quase dez anos! Me despindo e gritando por conexão real, querendo o mundo e as pessoas. Mas me sinto sozinho, me sinto forçado, não me sinto "lido" na vida real.

Eu queria poder mostrar a todos o texto que eu sou, cada linha de mim. É por isso que eu amo quando alguém se conecta a mim de alguma forma, por causa de algo, quando alguém engata um assunto empolgado comigo. Me sinto correspondido, amado. Amo quando vão comigo e quando me levam consigo pra dentro da alma, do íntimo, do sórdido. 
Por favor.

06/03/2017

Significado

A jarra de plástico tem formato de abacaxi
sua calça tem estampa de oncinha
e tem um peixe de plástico na parede do banheiro

tudo tão óbvio
que eu procuro te olhar nos olhos
e tento também achar significado em você, de forma meio paranoica
como se tudo representasse sempre uma outra coisa
"o que foi? que você tem?"

e quando não tenho resposta nenhuma, significado nenhum
(quem prefere viver triste do que confuso?)
símbolo nenhum
vejo que o amor é pleno até nessas lacunas
e meu peito explode de saudade

01/03/2017

Macaulay Culkin



por onde anda o Macaulay Culkin?
e outros tantos que não tiveram a sorte de serem de pedra
para não carregarem na carne o triste fardo de ser um símbolo eleito e vivo
símbolo de uma geração, uma época, uma cultura
arcar com esse estigma de "não-pessoa", de objeto atemporal, imutável
boneco de cera

"Macaulay Culkin foi fotografado pelo paparazzi
macaulay culkin mordeu uma pilha Duracell
macaulay culkin era menino tão talentoso!
macaulay culkin cheirando cola?
macaulay culkin está irreconhecível..."

Macaulay Culkin se olha no espelho
e não sabe muito bem o que dizer
por onde anda o Macaulay Culkin em 2017?

22/02/2017

Todo existencialismo é um pé no saco

Penso em todos os cacos de vidro que esperam nossos pés nas beiras das praias e na inutilidade deste e tantos outros pensamentos.
O que restou para mim? Fui criado junto aos "mitos", aos seres épicos, ídolos multimidiáticos, heróis urbanos munidos de opinião, "personalidade forte".
Como só ser, como ser alguém "mais ou menos" depois disso tudo? Depois da internet, depois de criar nosso perfil, blog, página e acreditar neles e se por nesse papel! Fazer dessa construção bizarra e irresponsável o nosso espelho?
Não me contento com essa resposta fácil de mim mesmo. Quero ser mais que isso que escrevo, que fotografo, que registro tão cuidadosamente para não pensarem de mim um coisa ou outra que eu não acho que sou. Quero muito ser mais que isso que inventei aqui.

13/02/2017

Balanço Geral de Segunda-Feira

explodo como uma panela de pressão que arranca o teto e suja a parede 

mentira. sou covarde.
eu aceito quieto, eu engulo. reclamo, mas reclamo fazendo, girando as engrenagens do sistema: Ficando feliz na sexta-feira e triste no domingo a noite.
Tem covardia maior?

tenho evitado discussões com ideias e pessoas desumanas, desiguais e cheias de ódio - mesmo sabendo que seria construtivo.
Tenho concordado e balançado a cabeça com sorriso amarelo - pura preguiça.
já não ligo para as normas da língua, da literatura e tenho enjoo de quem quer parecer inteligente (como eu já fiz e faço tanto nessa vida)

eu queria não me sentir ridículo cantando, escrevendo, amando ou fazendo seja lá o que fosse: mas é que parece que a gente nunca é a gente mesmo e dá vergonha passar por tantos personagens e fazer com que essa trama que é nossa vida faça ainda sentido.

Minha narrativa - a narrativa da minha vida - entrou em colapso, é inverossímil, é uma bagunça, é Balzac bêbado e com sono escrevendo besteira, errando nomes, lugares e coisas.

Me falaram que eu sou chato, um porre, porque eu não falo a coisa certa na hora certa nunca. E ficar tentando acertar isso tudo tem me matado:
me deixado feliz na sexta, triste no domingo.