14/09/2011

Mulata Molambo


Ê mulata, olhar molambo, jambo a boca.
Cuidado, moço bem criado: Três passos são pra frente e sete passos são pra trás! Aliás, passa rasteira e ralha com que homem for, faceira que é; ela é mulher, ela é mulher!
É punhal de aço, açude de mel, taça de vidro, vida ao léu.
Cuidado, moço! Os tambores estão avisando:
“Arreda homem que aí vem mulher!”

26/07/2011

Zé Navalha

Zé Navalha barbeia cantando na beira do cais. Zé faz barba, cabelo, bigode e pescoço de cabra que bate em mulher ou que rouba no carteado.
Vivendo assim que Zé vai tirando seus trocos e ganha presentes das donas: bolo fresquinho de fubá mimoso, moqueca bem temperada – tudo por reconhecimento.
Há uma gritaria dos moleques:
-Os home tão atrás do Zé!
De roupa branca cruza os corredores e cortiços. Roupa branca e vermelha, Zé! Tem sangue de um negro traidor nessa roupa, Zé! É sangue de seu irmão.
Ah, Zé! claro que as lavadeiras do cais te esconderiam! Suas roupas já estão brancas e limpas de novo; Mas como lavar o sangue de um irmão na própria alma? Ah, Zé... Que inocência! Isso nem as lavadeiras poderiam saber.

07/06/2011

01/06/2011

Das Quedas

Quantas vezes se cai do cavalo
e o impaciente animal vai embora
e restam apenas os pés
para seguir viagem

O sapato uma hora fura
e o casco do pé engrossa muito
e já não se sente mais
a frieza do chão

Tantos impérios nascem e caem
no piscar de uns séculos
Nós também somos de areia;
Areia movediça

12/05/2011

A Carne

Ouvi dizer por aí que a vida é boa
mas eles dizem muitas coisas
você sabe

Dizem também que o chão é frio demais
e de tanto cair a gente acaba
ficando frio também
e duro

Não levo essas poesias tão a sério
eu acredito na vida e
no chão que fica quente
com as batidas da nossa frágil
carne

Dizem que carne batida fica macia
Mas macio não é frágil
veja bem;
A carne é forte
A carne suporta o chão.

02/05/2011

Diluídos Água e Sal

Pernas brancas batem nas minhas
como ondas em pedras ásperas
e os seios são um porto onde atracam
navios que saem da minha boca

as unhas escrevem na minha pele
como velhos piratas bêbados
que rabiscam dezenas de X
num mapa incerto de tesouro

Há então um maremoto forte
e você deita em cima de mim
e bóia como uma garrafa jogada ao mar
(há mensagem dentro?)

me aperta com os braços
num difícil nó de marinheiro
e vamos nos balançando moles

estamos bêbados de
                                             a
mar

acordo e me deparo com
dois olhos cor de terra-virgem
e um grito de navegante sedento explode:
-Terra à vista! 

25/04/2011

Alfarrábio de João

Rita ri ronronando e ronca; rancorosa
Carla cospe no caminho e cora; copiosa
Flávia fuça nas falas e tira fotos; fatídica
Aline alisa demais o lar; lunática
Sandra sorri sem sal e samba mal; sorrateira
Valéria vê vultos e ouve vozes; violenta
Juliana jura e não faz jus; jogadora

E eu, João, vou ficando sem alfabeto.

15/04/2011

Mártir Pescador

Sob o sol com a velha rede remendada, o barco e de companhia os cupins. Chapéu de palha estourado na cuca e velhas marcas no rosto como se cristalizadas, talvez por lágrima ou talvez por mar; Essa diferença é muito sutil e quase inexistente para um pescador.

Desde menino crescido sozinho feito siri na beira d’água, as mãozinhas salgadas e o único acalanto vinha do sol que ardia no lombo. Vivia do mar... e o mar? O mar não vivia dele. Gigante e impassível permanecia. Foi essa sua primeira desilusão amorosa, antes da moça que usava vestido de flor e pano bonito nos cabelos.

É certo que confundia amor com dependência; com essa coisa que parece fome mal matada e sono mal dormido. Amor era isso: era bestial, primitivo e arrancava pedaços – como ele fazia com o mar, arrancando seus frutos e logo mais se sentia castigado quando, quase morto de fome, voltava com a rede vazia.

O triste pescador em cima do seu barquinho percebeu o erro fatal só muito velho, bem gasto pelo mar e já rachado pela maresia: Não havia vítima nem algoz; Era só amor e ponto.
A madeira estalava com o balanço das águas. Pela primeira vez pode perceber a diferença entre lágrima e mar; então num téc forte o coração estalou
também.


11/04/2011

Dez Minutos


Eu já tô chegando, menina! Na verdade eu sempre estive. Essa chuva fininha e eu enfiado nesse couro – trago dessa vez todos os meus remédios no bolso: Gastrite, garganta, olho, cabeça, febre; Estou completo dessa vez, remediado. Nada atrapalha.

Cinco minutos e eu já tô aí. Piso numa poça d’água e sempre me sinto o cara mais infeliz do mundo quando o pé começa a molhar devagarzinho com a água que penetra pelo tênis. Uma meia molhada e eu já me sinto meio livre.

Aquele barulho de pisada molhada e eu nem sei quantas poças eu já pisei – e tantas outras que pulei – pra chegar até esses olhos e braços quentinhos. Não me importa; são só dois minutos!

Eu de pé no seu portão chamando de um jeito engraçado, o barulho das chaves e a porta sempre se abre junto com um sorriso. O tempo não existe agora – ou não deveria.
Chegamos.

31/03/2011

Marcela

Marcela é uma garota que decidiu subir numa corda bamba por opção – pra sentir a adrenalina, se agarrar à “liberdade” – e agora, feito gatinho de desenho animado preso em árvore, está com medo e não sabe como descer.
Marcela, isso é corda bamba ou prancha de tubarão?

Ô Marcela, menina, esse papo de tudo ou nada, oito ou oitenta ficou lá pros anos noventa! Você se rebate feito criança no meio do alto mar, julgando linda a liberdade de (tentar) nadar pra qualquer canto, mas está só engolindo água!
O mar é fundo, Marcela!

Já pensou que esse oceano todo em que vive, se bate e rebate pode ser só um copo de água salgada?
Água salgada não mata a sede, menina!

Marcela, que vida é essa de ser levada pelas ondas da vida, sem ninguém ao redor, como uma cigana dos mares? Todos esses corpos que esbarra pelas correntezas são tão gelados, tão plásticos!

Por acaso não sabes, menina, como é bom ter um porto seco e quentinho? Creio que um dia chegará em um; Sim, chegará...
só não sei se
viva.


30/03/2011

Fotografia



Os olhos mirados no céu e na boca um “POR QUE?!” prestes a explodir. Os joelhos no chão, no meio da rua. Chovia.

Lá de cima ninguém respondeu. O céu continuava castanho, quieto e um pouco sarcástico, pensou.

O salgado do rosto misturou-se com o ácido da chuva e então, ficando de pé, começou a andar de novo, só que agora alguns mililitros mais leve.

Chorar faz dessas coisas; Transforma momentos ordinários em fotografias que ficam pregadas nos corredores dos olhos e tatuadas na retina.

23/03/2011

Andante de Um Olhar





Os olhos eram duas pontes que apontavam direto pro meu peito; 

duas trilhas estiradas no meu peito e entravam em mim como setas
duas estradas castanhas de se perder a vista, como fossem uma eterna sensação de longa viagem e de regresso exausto e prazeroso – ao mesmo tempo. 

Eu nunca soube aonde esses caminhos iriam me levar e, numa surpresa deleitável, acabo trombando comigo mesmo no meio do caminho;

Achei um Eu perdido (perdido?) lá dentro dela e invés de escravizá-lo
 – como muitos fazem ao encontrarem-se nos outros –, 
decidi viajar por suas paragens comigo mesmo 
e provar a liberdade dessa alma 
tão fecunda.

____________________________________________
(inspirado nela, minha musa ["musa..." ela vai achar isso terrivelmente brega] dos olhos nublados e
dedicado ao amigo 
Rogério Lupo, meu eu grisalho.)



18/03/2011

A Rua Lá Fora

As esquinas, azar e sorte, cheiro do prato comercial dos bares, crianças com olhos curiosos indo à escola em uniformes quentinhos, senhores de chapéu lendo jornal nas praças, mulheres correndo nos parques, céu e frio confortáveis.

Se começa a chover guarda-chuvas se abrem como poesia em papel e poderá ver sapatos e cabelos correndo ao abrigo do toldo vermelho da loja de doces.

E você aqui, lendo
eu escrevendo
e a vida lá fora.

17/03/2011

Os Carregadores de Mundo



Cada pessoa realmente carrega um mundo inteiro nas próprias costas.
Como se fosse uma longa fila para lugar algum, cada qual vai seguindo com o seu próprio mundo pesando nos ombros, naturalmente.

Assim como pequenos Atlas vão vivendo, sempre forçados a andar pra frente, chicoteados pelos labores terríveis do Tempo e as torturas do Tédio – inseparáveis e cruéis irmãos.

O que intriga é que estes pequenos grandes mundos são isentos de cor, como bolas de chumbo cinza e assim o são seus “donos”.    
Existem os corajosos que ousam descansar os ombros e, despreocupados com o Tempo e o Tédio, param para observar a paisagem e seus iguais. Brota então a Liberdade!

Eufóricos percebem milhares de cores e assim começam a colorir seus mundos com as tintas que encontram nos caminhos estreitos da Vida.

Assim enganam o Tempo e o Tédio.

Enganam a própria Morte; o trajeto final da fila.

02/03/2011

Alma na Garrafa



Há dias em que sou uma garrafa de vinho jogada no mar, deslizando. Dentro de mim apenas uma velha folha. Será que uma vida cabe numa folha?

Num dia preguiçoso eu esbarrei nuns pés bonitos, na beirada da praia de um sorriso fresco. Ela pegou a garrafa e destampou; Houve então um sorriso ou de decepção ou de esperança: A folha estava em branco. Então eu lhe disse:

-Ei garota! Escreva! Vamos... Escreva o que bem entender. A vida é tão curta e fina quanto esta folha.  Vamos! Só não me jogues no mar!

Então ela escreveu como nunca; escreveu sobre o amor.
Jogou-me no mar de novo, é verdade,
só que agora o mar era dentro
dela.

20/02/2011

Colecionador de Nuncas

Eu? Eu vivo na corda bamba do dia que não veio
e existo no sorriso que não brotou.

Talvez eu seja mesmo tudo o que nunca aconteceu:
há dias em que me olho no espelho e vejo aquele quem não fui.

09/02/2011

O Drama de Jonas

(Ao amigo Rubem Rocha)


Jonas era um garoto que colecionava xícaras. Porcelana, vidro, coloridas, Rei Leão, Tarzan.

Um dia Jonas quebrou uma xícara. E outra. E outra. E quebrou todas e chorou, pois naquele dia Jonas não conseguia entender.

Não tinha encontrado o café em cima da mesa, mas sim sua mãe, com os olhos abertos e frios como xícaras de café amanhecido, tombados no chão da cozinha.
A colher ainda na mão e o pote de açúcar tombado. O chão parecia um estranho mosaico.

Então Jonas pegou os seus extraordinários oito anos de vida junto com seus cacos coloridos (não os de xícara, mas agora os do coração) e teve que seguir.

Nunca mais conseguiu tomar café; não com os olhos secos.


03/02/2011

O Marinheiro


Por que choras, marinheiro? O mar já está cheio por demais dessas gotas tão salgadas!
Nos dias vives parado nas pedras do porto, e como isso não bastasse, nas noites se apóia no Grande Farol com sua garrafa de vinho quase vazia e as velhas cartas desbotadas na mão. Giras os olhos como se fosse o próprio velho farol; Procuras algo... Mas o quê, marinheiro?

Ah, marinheiro! Vejo que continuas aqui e tuas olheiras já me parecem mares inteiros... Onde já se viu marinheiro com coração de poeta? Teus convivas já zombam de ti e dos apelidos tens os piores! Toda a marujada bebe nos cabarés da cidade e você ainda aqui, homem salgado?

Já destes nós tão firmes nas velas, sobrevivestes aos tombos do navio e à peste, pelejou nos saques e... e agora isso? Que é isso que te mordeu que já não comes, não dormes nem sonhas?

Onde está o punho vigoroso, os músculos impregnados de mar? Por que teu coração não enferrujou como os de tantos outros marinheiros que, vencidos pela maresia, esquecem-se dos olhos amendoados, das pernas quentes e, acostumados à solidão, partem para não se sabe onde?

Ame as ondas com suas espumas e a lua bêbada das noites e as nuvens que pendem no céu oceânico – no máximo – mas, ai de ti, marinheiro! Como ousas amar aqueles cabelos, aqueles dentes tão frescos? Como queres trocar o balanço de teu navio pelo embalo de uns braços de seda?

O teu navio! Olha, ele já vai partindo; E, qual teu nome, formidável marinheiro?
Como? Não te lembras?

-É Marinheiro... Marinheiro só.

02/02/2011

Ela Odeia Blues

(Ao Anônimo)

 


É a dona das minhas olheiras e
manhãs dilatadas;
talvez por isso a garrafa de café
quase sempre vazia
e umas pernas tão, tão brancas que dão até vontade de morrer
com a cabeça lá
no meio

e o Blues vai tocando
junto com a gente
mas dessa vez ela nem se importa ou reclama
pois sorri faceira
e nua

25/01/2011

Os Olhos

Encontrei com ele na sala de espera do centro cirúrgico de um hospital oftalmológico.
Jovem bonito, gentil e tinha um sorriso tão branco, tão largo e espontâneo que eu me surpreendi ao perceber que ele era praticamente cego:
- Enxergo dez por cento, mais ou menos – ele justificou ao sentir o meu espanto, mas manteve o sorriso e me olhava fixamente.
Aqueles olhos brilhavam; eram os olhos mais vivos que eu talvez já tenha visto. Fiquei pensando como tantas pessoas que enxergam na sua totalidade não conseguiam manter aquele brilho, aquela vida dentro dos olhos; era uma chama.
Falamos sobre música e mulheres e nossos problemas no olho e demos boas risadas; Ele com seus dez por cento e eu me sentindo até arrogante por ter sessenta por cento e reclamar tanto. Senti vergonha.
A enfermeira chegou para levá-lo à cirurgia e então ele se despediu, brincando jocoso:
-A gente se vê!
Eu sorri e concordei. Sabia que aquilo era verdade; Nós veríamos sempre, mesmo com os olhos tão remendados e talvez até fechados.
Nesse dia eu percebi que a cegueira é algo que vai muito além dos olhos... e a visão também.

18/01/2011

Milk-Shakes e Caras Sentimentais


(à Charles Bukowski)

Aqui na esquina eles vendem milk-shakes
com vodka

deve ser uma boa para caras assim,
meio sentimentais

Tomar um porre de Milk-shake
com a sua garota
deve ser algo muito digno, pois as velhinhas
do ponto de ônibus e da fila do banco
nunca iriam se importar
com um casal dançando na rua
na chuva
segurando Milk-shakes

e elas até
ficariam felizes.

Até o Bukowski
ficaria
feliz.

17/01/2011

Texto Popular


Água mole em pedra dura tanto bate até que a pedra bate de volta! Pois, não que o mundo seja cruel; não! O mundo é cru, apesar de as coisas estarem esquentando ultimamente.

Deus tem dó de quem cedo madruga, pois este não vê o sol nascer e nem ouve um Blues debaixo do céu pelado e frio, sem lua. Quem cedo madruga não sabe que os dias passam rápido demais.

Mais vale nenhum passarinho na mão e todos no ar; Mais vale ficar com as mãos livres para segurar as mãos do teu velho, passá-las no rosto da sua garota e segurar o amigo que bambeia.

Em terra de cego quem tem olho é estranho. Aliás, todos são muito estranhos e, conheço muitos casos em que, mesmo munidos de olhos e uma visão de águia, andam muito, muito cegos.

16/01/2011

A Fuga

Na fuga em um gole de café eu vejo na xícara

dois olhos sem açúcar e,

como num susto,

acabo
me encontrando.

04/01/2011

Trinta e Sete

-Até logo.
E deu dez passos a moça de vestido colorido.

Em dez passos arranjou dez motivos e meio para nunca mais voltar.
Mais dois passos e assim, nesta dúzia distante, sentiu-se observada e virou para trás.
Avistou uma boca e na boca um sorriso. Trinta e dois dentes, duas mãos firmes e quentes enfiadas nos bolsos e um brilho nos olhos.

Trinta e sete bons motivos para voltar.

Não que fosse volúvel, mas sabia contar:
Saudades misturada com boca, sorriso, mãos firmes e brilho no olhar, ah! Isso tudo era sempre uma ótima desculpa para relevar outros tantos motivos que pareciam – e só pareciam – tão errados.