06/06/2017

Discursinho de exploração interior


Passei tanto tempo escondendo esse meu eu de todos, cantando só para mim e escrevendo para tão poucos, sendo poeta para tão poucos e frequentemente sufocado dentro de mim. Vergonha, morrendo de vergonha sempre. Arrastando sentimentos pelos rodapés das casas e falando sempre mais baixo quando esse eu que produz, canta, escreve, lê e sente vinha a tona.
Eu queria explodir num sentimento de mundo, abrir o peito em flor e gritar: Eu sou todo cor e sem contornos! Sou volúvel por dentro e trêmulo por fora. Mesmo que toda essa ânsia por arte pareça ridícula, supérflua, mentirosa, forçada, boba, clichê, exagerada, espalhafatosa, dissonante do eu que conceberam de mim - mesmo assim - eu sou isso. Eu sou isso, no mais íntimo e atômico do meu ser eu sou arte e respiro arte mesmo sendo um artista tão patético, raso e preguiçoso.
Não vejo salvação nenhuma para minha vida fora da poesia, da prosa, do cinema, da fotografia, da música, da dança, do cinema, de achar engrçado e triste aquelas crianças correndo no parquinho, de encarar o muro cinza em frente ao ponto de ônibus e ali ver uma beleza de mãos humanas que trabalharam.
Sou isso - só isso - e passei tanto tempo querendo que acreditassem em mim. Me sinto um adolescente frustrado, uma criança mal resolvida por rnão ter me mostrado antes, gritado antes - agora é tão difícil, parece que sou outro que não eu mesmo. Será que é tarde demis agora? Será que o bonde já passou? É tão trabalhoso mudar o costume e o olhar dos terceiros, tão enfadonho quanto traalhos infinitos de escritório. Se recolocar nesse mundo tão engessado, achar uma nova posição para esse antigo e vivo "eu". Mas qual escolha eu tenho?

16/05/2017

As Pilhas

Na primeira vez eu era pequeno. Tão pequeno que usava ainda pijamas para dormir. Como todas as crianças que acordam subitamente de madrugada, acabei por descobrir um segredo. Vi meu pai na cozinha escura, sorrateiro e alerta feito luz que acende sozinha na rua. Com o braço esticado para a parede, pegou o único relógio da casa e tirou a pilha. “O tic-tac não me deixa dormir”, explicou mais para ele mesmo do que para mim.
Mesmo tendo visto esta cena de símbolos tão marcantes durante muitos anos, eu não conseguia entender a situação de forma completa. Julgava-o sistemático, paranoico e até medroso do tempo. Eis que numa noite qualquer, vinte tantos anos depois, me peguei pesquisando no Google “não sei o que fazer da minha vida”. Naquele momento, embalado pela valsa dos ponteiros, eu pude entendê-lo.

04/05/2017

Ficha que cai

a gente deixa tanta coisa passar sem se dar conta
e quando se dá conta de algo
quer descontinuar o mundo
e entrar na máquina do tempo (máquina que não existe)
para resolver uma pendência que é só nossa

parar o mundo
para salvar a si mesmo no passado
por isso o arrependimento
é tão egoísta e amargo

26/03/2017

Por Favor


Eu queria realmente conseguir me conectar com todas as pessoas.

É mais fácil pegar um avião e ir pra Bahia do que conhecer o quintal do meu vizinho, os sonhos do meu vizinho e todos os medos dele. Como eu queria um momento de humanidade com alguém, de conexão pura, simples e desinteressada, não forçada: sincera e leve. Queria ter esses momentos com todas as pessoas, principalmente os mais próximos: minha família, que mesmo vivendo décadas na mesma casa, ainda me soa tão longe, tão estruturalmente distante de mim, do que eu sou.


Eu também escondi tanta coisa do que eu sou - pros meus vizinhos, meus amigos, minha família. Sempre tentando me encaixar, eu tenho escondido muito, do que eu sinto, penso e sou. Há momentos de lucidez que olho pra minha mãe, pai e irmãs e falo: eu queria muito conhecer eles todos fora dessa casca que seus olhares me colocaram e que eu vesti sem relutar. Queria me mostrar, me gritar: E É POR ISSO QUE EU ESCREVO AQUI por quase dez anos! Me despindo e gritando por conexão real, querendo o mundo e as pessoas. Mas me sinto sozinho, me sinto forçado, não me sinto "lido" na vida real.

Eu queria poder mostrar a todos o texto que eu sou, cada linha de mim. É por isso que eu amo quando alguém se conecta a mim de alguma forma, por causa de algo, quando alguém engata um assunto empolgado comigo. Me sinto correspondido, amado. Amo quando vão comigo e quando me levam consigo pra dentro da alma, do íntimo, do sórdido. 
Por favor.

06/03/2017

Significado

A jarra de plástico tem formato de abacaxi
sua calça tem estampa de oncinha
e tem um peixe de plástico na parede do banheiro

tudo tão óbvio
que eu procuro te olhar nos olhos
e tento também achar significado em você, de forma meio paranoica
como se tudo representasse sempre uma outra coisa
"o que foi? que você tem?"

e quando não tenho resposta nenhuma, significado nenhum
(quem prefere viver triste do que confuso?)
símbolo nenhum
vejo que o amor é pleno até nessas lacunas
e meu peito explode de saudade

01/03/2017

Macaulay Culkin



por onde anda o Macaulay Culkin?
e outros tantos que não tiveram a sorte de serem de pedra
para não carregarem na carne o triste fardo de ser um símbolo eleito e vivo
símbolo de uma geração, uma época, uma cultura
arcar com esse estigma de "não-pessoa", de objeto atemporal, imutável
boneco de cera

"Macaulay Culkin foi fotografado pelo paparazzi
macaulay culkin mordeu uma pilha Duracell
macaulay culkin era menino tão talentoso!
macaulay culkin cheirando cola?
macaulay culkin está irreconhecível..."

Macaulay Culkin se olha no espelho
e não sabe muito bem o que dizer
por onde anda o Macaulay Culkin em 2017?

22/02/2017

Todo existencialismo é um pé no saco

Penso em todos os cacos de vidro que esperam nossos pés nas beiras das praias e na inutilidade deste e tantos outros pensamentos.
O que restou para mim? Fui criado junto aos "mitos", aos seres épicos, ídolos multimidiáticos, heróis urbanos munidos de opinião, "personalidade forte".
Como só ser, como ser alguém "mais ou menos" depois disso tudo? Depois da internet, depois de criar nosso perfil, blog, página e acreditar neles e se por nesse papel! Fazer dessa construção bizarra e irresponsável o nosso espelho?
Não me contento com essa resposta fácil de mim mesmo. Quero ser mais que isso que escrevo, que fotografo, que registro tão cuidadosamente para não pensarem de mim um coisa ou outra que eu não acho que sou. Quero muito ser mais que isso que inventei aqui.

13/02/2017

Balanço Geral de Segunda-Feira

explodo como uma panela de pressão que arranca o teto e suja a parede 

mentira. sou covarde.
eu aceito quieto, eu engulo. reclamo, mas reclamo fazendo, girando as engrenagens do sistema: Ficando feliz na sexta-feira e triste no domingo a noite.
Tem covardia maior?

tenho evitado discussões com ideias e pessoas desumanas, desiguais e cheias de ódio - mesmo sabendo que seria construtivo.
Tenho concordado e balançado a cabeça com sorriso amarelo - pura preguiça.
já não ligo para as normas da língua, da literatura e tenho enjoo de quem quer parecer inteligente (como eu já fiz e faço tanto nessa vida)

eu queria não me sentir ridículo cantando, escrevendo, amando ou fazendo seja lá o que fosse: mas é que parece que a gente nunca é a gente mesmo e dá vergonha passar por tantos personagens e fazer com que essa trama que é nossa vida faça ainda sentido.

Minha narrativa - a narrativa da minha vida - entrou em colapso, é inverossímil, é uma bagunça, é Balzac bêbado e com sono escrevendo besteira, errando nomes, lugares e coisas.

Me falaram que eu sou chato, um porre, porque eu não falo a coisa certa na hora certa nunca. E ficar tentando acertar isso tudo tem me matado:
me deixado feliz na sexta, triste no domingo. 

09/08/2016

A hora e a vez



A brincadeira acabou. Você é como a criança que saiu debaixo da cama-esconderijo. A porta se abriu ou se fechou, tanto faz. A hora exata, cravada em segundos, chegou. Chegou, pois chamam seu nome em alto e irrefutável tom. Não há desculpa, nem passatempo. Não há sala de espera. Agora é você. Agora é isso que construiu pra ser você, que inventou pra fugir do medo e se auto afirmar nessa solidão coletiva e abismal chamada de mundo. Criatura fantástica forjada ao acaso sempre com a mão na maçaneta, com os dedos no botão, com os olhos no papel. Pronto pra saber o próprio destino - não importa o que está acontecendo, só importa que é sua hora e vez. 

Você se olha no espelho sabendo de tudo. Tudo numa indevida lucidez; numa eterna prancha dos tubarões; de joelhos no chão com o teu carrasco já a prender a respiração. Esse então é você: pelado e frágil diante do espelho, sabendo da morte e do sofrimento antes da morte. Tenta ensaiar um sorriso, tenta! Sabendo das guerras, dos estupros, do câncer, das crianças que somem nos shoppings, das bombas que virão. Por fim, sabendo de si mesmo e do desenrolar da própria vida. Você fecha a torneira e olha os dentes tão brancos e então nada acontece. A hora H foi embora, o momento crucial passou desvairado como um ônibus vazio na madrugada e você ficou, de novo.

08/07/2016

Nós humanos, espalhados como areia em ventania

Existe uma descontinuidade eterna em nossa vida. Somos pedaços ambulantes espalhados pelo tempo.
Algum filósofo ou sociólogo com maior paciência que eu para estudar vai saber o conceito certo, pragmático. Eu não, eu não vou saber, eu só quero sentir.

Acontece essa descontinuidade, essa quebra, pois somos dotados de uma memória atemporal e um corpo físico fadado ao tempo, temporal. Esse é o clássico embate dualista mente versus corpo, tão visto, tão falado - e  sem saída.
A memória é atemporal por que traz exatamente a mesma sensação, o mesmo cheiro, o sentimento - tudo - de um momento passado (e futuro, talvez) que fisicamente é incapaz de se reproduzir no presente, no momento em que se lembra. O corpo físico está fadado aos mandos e desmandos do tempo, trancafiado no plano cartesiano tempo versus espaço. 
A mente não tem essa limitação; a mente está além do tempo. A memória pode se deter em qualquer lugar do tempo, como se pausa um vídeo - e pode deter-se até em memórias que não aconteceram, como Freud mostra em suas "Lembranças Encobridoras". Não importa a veracidade da lembrança, mas sim as sensações que ela traz, sensações que não deixam de serem reais.
Mas enfim, lembrar de um momento reproduz no corpo a mesma reação física, mental, sentimental de estar realmente vivendo este momento novamente. O que difere o lembrar, na mente, do viver, de corpo presente, é o impedimento de interagir com o passado. Imutáveis como pedra são as lembranças - mesmo que se desvaneçam com o tempo e possam ser reinterpretadas.
Isso tudo transforma os pensamentos fardos muito doloridos para carregarmos: A mente está num lugar, o corpo noutro. Essa cisão nos persegue e é parte integrante de nós. Somos pedaços ambulantes espalhados pelo tempo e a ânsia de juntar nossos pedaços nos leva a frustração e ao desgosto. Um problema sem solução, um paradoxo.
Queremos arrumar a vida como arrumamos a nossa casa: deixar tudo alinhado, limpo e organizado em caixinhas. Queremos sanar nossas pendências com as outras pessoas e deixar tudo em "pratos limpos", mas não podemos! Justamente por sermos seres anacrônicos, cindidos, espalhados pelo tempo. Conciliar passado e presente - mente e corpo, cultura e natureza- é como querer matar o passarinho ontem atirando uma pedra hoje.

Sabe o foda? O foda mesmo? Tudo isso é óbvio demais pra ser falado, pra ser posto em texto ou em fala. Lendo e relendo tudo isso dou risada pela obviedade da nossa constituição dicotômica. Como é bobo o sofrimento humano. Como são bobas nossas aflições.



06/07/2016

Nossa, faz tanto tempo, não faz? Eu só queria dizer que eu passando pelas ruas de Jaçanã vi um motel do lado de um ferro-velho e, por um micro momento que logo após se perdeu, pude saber tudo o que era a minha cidade e tudo o que ela diz . Vi toda nossa crença pretensamente científica, nossas linhas invisíveis de ligação quase religiosa com o dito progresso - tudo tão universal que Levi Strauss até ficaria feliz. Eu soube onde todas as pessoas estavam indo. Toda essa estrutura fantasmagórica que faz coexistirem motéis e ferros-velhos.

05/04/2016

Sentimento de Ir

A sensação única de estar numa rodoviária de longos percursos. Este é o momento crucial, de tamanho sentimento e de turbilhão das vidas e suas possibilidades. Neste lugar só há a sensação de ver a moeda ser jogada num cara ou coroa eterno, como num gif bobo da internet: ficamos presos ao momento exato em que a moeda gira no ar das incertezas, sem jamais saber o resultado.

Essa sensação de imensidão; de únicas oportunidades; de tudo no nada, com certeza já foi sentida por muitos. Alguns pensadores definiriam isso apenas como "modernidade". Até mesmo Robert Johnson, ao gravar uma das primeiras músicas que se poderia gravar no mundo - Love in Vain, que se passa numa estação de trem - devia estar pensando nisso. E olha que não há nada mais justo que o blues para incorporar esse sentimento de rodoviária.

Minha primeira pontada no coração assim, de furacão, foi ao visitar um amigo querido em Minas Gerais. Voltei outra vez e outra ainda até que passei a voltar sem vê-lo. Retornei somente para Minas, que continuava lá parada e intocada. Minas Gerais, muito diferente de nós, humanos, com nossos tantos caminhos que cismam em desencontrar-se, o nosso movimento para lugar nenhum. Nossas palavras que não nos abrem estradas, mas sim buracos e abismos.

Só lhe digo que pessoas continuam com suas mochilas nas costas, esperando seus ônibus e aviões e caronas. Digo também que esse tipo, que viaja de canto a outro, incomoda demais a todos nós. Foi assim com os ciganos, os negros, os judeus e outros tantos povos nas guerras e crises: os mochileiros vira-mundo, os bolivianos discriminados em SP... e sabe o que mata?

Mata ver que essas pessoas assumiram percorrer um caminho, tragar a estrada, ao contrário de todos nós que pretensiosamente achamos que o caminho é só um meio para se chegar a algo maior, que já revelamos o sentido de nosso caminhar. Essas pessoas conseguiram sentir que o caminho é o próprio objetivo de uma vida - não há nada pra frente ou para trás, a não ser a própria andança.

15/02/2016

Dos Muros

http://petjair.blogspot.com.br/2012/03/experimentacoes-abstratas.html


Tudo tem um limite, você sabe. Uma linha traçada no chão ou no ar que separa algo de outra coisa ou acaba essa primeira para um nada, para um abismo desconhecido.

E quando falo tudo, é tudo mesmo. Qualquer mínima besteira, qualquer gesto, pensamento ou até mesmo olhar. Ninguém quer passar pelas linhas-limite - ainda mais suas próprias. 

A gente se mapeia quase que geograficamente. As linhas mais totais chegam até a se materializar em muros, cercas e portas físicas, concretas; Documentos, passaportes, papeis e sobrenomes.

Nossos muros físicos, nossa ânsia por privacidade, nossas máscaras diárias são um reflexo dos nossos limites inventados. "nossos" e "inventados" por que são coletivos como a roupa invisível do rei.

18/12/2015

cucurrucucu

pense numa pomba que machucou a perna (e talvez até a asa) e manca, mas ninguém se importa - pois as pombas são todas iguais e são muitas - os cachorros são mais legais e fiéis, eles dizem.

não há movimentos pela vida das pombas, adoção de pombas, ou pombas bonitinhas na internet com touquinhas de papai-noel brilhando e dando bom dia.

os velhinhos que jogam migalhas às pombas todo domingo - eles são quase odiados. Importar-se com pombas só poderia significar mesmo a iminência da morte que os puxa os cabelos pouco a pouco.

e nada disso eu digo com pena ou com protesto ou com a bandeira das pombas "salvadoras da bondade humana" - só percebo como elegemos certas criaturas para nossa vida, para nos sentirmos tão importantes nessa cadeia alimentar sentimental da qual se nutre o ego.

lembrei-me de um conhecido que cumpria pena numa instituição que trabalhei. o nome dele era Vaderly e ocasionalmente caçava pombas na rua pra vender - nunca entendi como - mas dizia que as brancas valiam mais.

Eu imaginava aquela situação e meio que ria: Um homem calvo e gordinho caçando pombas na rua em pleno 2014

uma outra passagem: em outra instituição que trabalhei, também uma escola. um professor de educação física aposentado fazia trabalhos voluntários. Ele levava no final do ano uma espingarda de chumbinho - e como este é um texto sobre as pombas, vocês podem imaginar.

e você, já parou pra pensar sobre a vida das pombas? Ignoramos tantas coisas e fingimos saber de tantas outras.

13/10/2015

Talvez primeira história real

Quando eu te encontrei naquele quadradinho de casa - um bloquinho de dormir, comer e urinar - cheio de cartelas de remédio espalhadas pela casa, vazias, cheias, começadas e abandonadas. Quando eu te encontrei lá, todo não-você, todo sem saber e pior: sem querer saber. Quando isso aconteceu, eu quis te gritar a vida, as coisas, as crianças que passam de bicicleta lá embaixo e os animais e o mundo que continua incansável. Quis te sacudir e te bater, como quem esbofeteia para acordar do sonho mal dormido, como quem chama de volta do transe.

Quando eu te olhei assim eu quis virar o olhar, eu quis falar que não, que logo passa, que era besteira, que não ia ser nada. Eu quis virar o olhar por que tive medo de me ver também ali; de você fazer sentido dentro dessa coisa terrível que habitou sua alma, que arrancou todo o brilho dos seus olhos, que comeu como traça as coisinhas que você zombava nos fazendo rir; que você fazia no sábado de manhã junto com seu tênis de caminhada. Esse parasita silencioso que te arrebatou de você mesmo - e fez o seu chuveiro ficar seco com um pó de deserto, sua pia quase rachada de seca e fungos vivendo na geladeira - esse parasita que, num consultório frio e branco, chamaram de depressão.

16/09/2015

Percebi que sou um construtor. Por isso o interesse constante nos martelos, serras, trenas, parafusos e chaves que eu passo olhando pelas lojas, me fascinando. Compro várias ferramentas, mas uso-as pouco. Gosto de tê-las comigo - pseudo-construtor é o que sou, ou "de boutique", como queira.

Eis que a vida me jogou no caminho dos livros e suas letras e as mãos ficaram ociosas. Percebi o quanto é difícil me satisfazer com o pensamento ideológico, com a filosofia e sua vaporosa aura. Taurino, é bem verdade que sou, mas será por isso essa eterna busca por concretudes e construções?

Imploro para que os parafusos afrouxem, para que a bicicleta quebre e que me peçam para consertar, remendar, lixar, pintar, por, tirar. Preciso disso, como Aureliano na chuva de quatro anos, onze mezes e dois dias em "Cem Anos de Solidão". 

13/08/2015

Crônicas de Alface


         Plantei uma alface. Uma só, bem no meio da terra poeirenta e esquecida do quintal. Sol e chuva, ela cresceu grande e forte. Tão mais viva do que as amareladas do mercado! Até fiquei com dó. Arrancá-la dali seria arrancar a pontinha de esperança de algo mudar no mundo. No mundo de um quintal, pelo menos. Tirar o ponto verde do mar de poeira seria admitir a derrota certa e irreversível da natureza. Então ela cresce, cresce e cresce. 

         Até onde, meu Deus? Até onde vai essa alface? Acontece que após meses fiquei pasmo. Reação digna de quem cresceu na megalópole. Vi que do meio da alface despontou um caule firme e reto como uma árvore. Dele ramificaram-se dezenas de flores amarelinhas muito delicadas e sem graça. Bobas e ofuscadas, ficaram sendo as mais lindas que já vi. Eu havia sido privado da totalidade de uma alface durante toda a minha vida; percebi que eu não sabia de nada e nunca soube.

         Quem diria que depois de tanto nesta vida eu, já tão amassado pelos martelos da conformidade, teria que lidar com isso; flores de alface. Contei pra todo mundo que conheço, tirei muitas fotos iguais, mas ninguém pareceu realmente entender a proporção dessa descoberta. Flores de alface, meu leitor urbano. Pense nisso.

28/06/2015

Donos de Pixels

Escrever num mundo onde um sentimento não vale mais que 140 caracteres, onde você é uma aba no meio de infinitas outras abas. Tudo já foi exposto, tudo já foi dito, tudo já foi mostrado e explicado com qualidade HD, tudo já está na Wikipedia, tudo. 

Porra. Como é difícil escrever aqui - como é doloroso saber que realmente estamos sozinhos - uns com outros, em rede, mas terrivelmente sozinhos. 

Tem o cara que compra uma máquina de escrever; tem o cara que escreve de caneta no caderno - atos de desespero, nada mais que isso. Tentamos - eu confesso que também tento - voltar a um lugar, a um tempo onde nada era assim tão solúvel e rápido. Nada de fibra ótica, de megas de velocidade. Uma esfera de vida onde existia novidade, onde tudo era bruto, puro e causava espanto. 

Até falar sobre a rapidez e plasticidade da vida – como faço aqui, agora - já se tornou um clichê irreparável, chato e conservador. Nos restará alguma poesia senão a poesia de um museu de cera?

Vocês aqui deste grupo-escrevedor, donos destes bytes, caracteres, perfis, sites e pixels: Vocês são todos lunáticos!

e isso é lindo.

22/06/2015

Porvires

medo de acordar com uma meia só no pé
medo de esquecer o guarda chuva
medo de não ter papel higiênico
medo de perder o ônibus
medo de estar tão corajoso - pela primeira vez

medo de pensar tanto e saber e ver e concluir,
mas não saber o que fazer então

medo da pedrada inevitável, do dia inevitável;
(a chamada da enfermeira para a injeção quando eu era pequeno)
medo da minha vez; do dia que sempre chega pra todos
e que todo mundo sabe o que esse dia é, pois todos já pensaram nele antes de dormir.

viver na inevitável sensação de porvir
do que vai acontecer - ou do que não vai
e assim paramos pra olhar, paralisados
e então se passam 100 anos
e tudo aconteceu,

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mas nem estávamos lá.

17/06/2015

Bandeja das Verdades

com a bandeja das verdades em mãos - as verdades de tudo que eu sou e mais (e ainda pior): tudo aquilo que eu não fui - eu vou descendo ruas muito estreitas e muitas

subo escadas mal acabadas de degraus desiguais. Vou tentando não derrubar nada pelo caminho, como tanta coisa que já deixei
ao chão

Agarro-me às verdades; as duras verdades ditas e dadas levemente, como fossem lindas crianças - carregando fuzis.
Agarro-me, como todos os outros do mundo todo, às verdades - e quando me dou conta, quando já percorri tudo que era caminho,
quando já cheguei, esfarrapado, ao mar, me dou por perdido.

olho para as mãos e vejo - para o espanto de quem carregava bela bandeja - entre os dedos e escorrendo manga adentro,

um belo punhado de lama.