aviso

ironicamente neste espaço público existe o mais sórdido, o mais íntimo e o mais verdadeiro de mim e tudo quanto foi extraído

frequentemente usei palavras que não entendo, imitei escritores e escritas: forçadamente rebuscado ou forçadamente não-rebuscado

nunca encontrei verdade, mas ainda assim fui real: escrevi com a vontade dura e inegável do caroço do abacate

16/05/2010

Mulher e Tarde Dormindo Nuas


Na janela do quarto onde é sempre outono, cabelos pretos estão esparramados na cama macia. São cachos olorosos que parecem dançar junto à respiração suave da moça adormecida. O relógio está parado, estático, sem tique e sem taque e a cama se esforça para não ranger. O gato foi paquerar lá longe e o cão adormeceu. Ninguém quer e ninguém pode acordá-la, pois seria cruel, um ultraje; seria pecado!
O rosto é fresco e enrubescido como um fim de tarde envergonhado. Possui traços que entorpeceriam até mesmo uma vista bruta, calejada e infeliz. Ela, sem saber, faz com que se queira atravessar uma tarde inteira vendo-a dormir.  Assim age o sol enquanto vai indo se por, tentando contemplar o espetáculo com um soslaio atrevido. Não por conta das formas ou curvas, do hálito quente ou das mãos perfumadas, mas sim pela cena retratada ali; parece até um quadro  barroco, vivo.
Alonga-se toda de modo preguiçoso ainda dormindo. Passa os pés e pernas sob o lençol creme que chia e estremece em contato com a pele branda, bem como as folhas que farfalham lá fora; Invejosas que tentam acordá-la! Está nua sim, é bem verdade; porém mesmo despida não transparece vulgaridade ou qualquer vestígio humano. Daí a inveja das folhas: Não é nu banal que acontece aos montes; é nobre, é nu de floresta virgem.
Então esboça um sorriso quase invisível, misto de devaneio ou fantasia e se estica inteira outra vez. Ameaça abrir os olhos com um bocejo longo e mudo, mas logo desiste com uma preguiça contagiante e esplêndida. Acomoda o corpo no lençol desarranjado e os cabelos escuros pendem da borda da cama, como se fossem derramar-se por sobre o chão. Ah! Como dorme esta mulher!
Agora sei por que nessa janela é sempre outono: Nunca teve coragem de ir embora. Com todos estes pensamentos em mente, termino de escrever o bilhete, então o leio mais uma vez e antes de colocá-lo ao lado do travesseiro as palavras dobram seu peso:
“...mas não sou outono não, mulher! Quando acordar estarei indo para um longe incerto, com olhar tão afrouxado quanto agora; Só que não verei mais tua flora de rasas relvas ou os campos de trigo de tuas costas; nem mesmo os montes rosados que são teus seios. Só verei a vida crua tão nua quanto você, rolando pelos trilhos, passando dolorosa e agradavelmente pela janela do trem.”

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