Pensou:
Essas ruas são tão sujas. Sujas como meu cigarro, o asfalto quente como meu pulmão. Quantos sapatos já não se gastaram nessas ruas, procurando algo, algo que talvez nem exista? Quanto tempo já pas...
-Senhor, são cinco e dez. Senhor..?! Tem dez cents aí pra ajudar no troco?
-Nunca tenho.
Nunca tive. Nem dez cents, nem algum propósito para gastar meus sapatos; Digo, algum propósito que realmente quisesse cumprir, algo real. Se as ruas não fossem tão ásperas, os sapatos durariam mais.
-Moço, tô com fome, me ajuda aí vai, pode ser qualquer coisa..
Aliás, as pessoas são ásperas também, tão ásperas quanto as ruas. Mas pessoas ásperas fazem algo muito pior do que somente gastar sapatos; Pessoas ásperas gastam vidas, ralam sonhos e trituram pessoas inteiras mais rápido que sapatos perdidos no centro da cidade.
* * *
Mais tarde naquele dia ouviu-se a história se espalhar entre os meninos de rua, todos ouviam atentos:
-Num sei se era loco não! Só sei que eu pedi pra ele me ajudá aí ele tirou os sapato e me deu no meio da rua! Disse que agora era livre! Vai intendê!
18/01/2010
29/12/2009
Sobre Poltronas Nostálgicas
Não que uma poltrona substituísse os braços cheirosos e macios de uma mulher, mas aquela até que cumpria bem o seu papel, abraçando e acolhendo de bom grado o homem amargurado, que pelas tardes se sentava ali fingindo ler o jornal enquanto só pensava nublado.
Nesse clima eterno de inverno passaram-se anos e a barba do homem já começava a apresentar alguns poucos fios brancos, ainda acanhados em sua face. A poltrona continuava lá, imponente, encarando o homem e deixava-o constrangido, pois atestava todas as suas dores.
Foi numa tarde como qualquer outra que o homem amargo decidiu não fingir ler o jornal; nem sequer o levou para a sala, simplesmente sentou-se na poltrona e olhou para frente. Espantou-se a princípio com o que viu: Uma janela. Quase tinha esquecido da velha janela!
Num desses impulsos típicos de criança, levantou-se e olhou através. Sem hesitar, abriu-a. Viu a rua, as vidas e seus donos passando pela calçada, crianças que brincavam com o verão. Então olhou para a casa da frente e seu lindo jardim; Olhares se cruzaram e então ouviu quase como uma profecia:
-Bom dia! – Numa saudação elegante, com um sorriso daqueles que contam tudo o que se precisa saber.
O sol se fez presente nos dois pares de olhos. Nunca mais usou a poltrona.
Nesse clima eterno de inverno passaram-se anos e a barba do homem já começava a apresentar alguns poucos fios brancos, ainda acanhados em sua face. A poltrona continuava lá, imponente, encarando o homem e deixava-o constrangido, pois atestava todas as suas dores.
Foi numa tarde como qualquer outra que o homem amargo decidiu não fingir ler o jornal; nem sequer o levou para a sala, simplesmente sentou-se na poltrona e olhou para frente. Espantou-se a princípio com o que viu: Uma janela. Quase tinha esquecido da velha janela!
Num desses impulsos típicos de criança, levantou-se e olhou através. Sem hesitar, abriu-a. Viu a rua, as vidas e seus donos passando pela calçada, crianças que brincavam com o verão. Então olhou para a casa da frente e seu lindo jardim; Olhares se cruzaram e então ouviu quase como uma profecia:
-Bom dia! – Numa saudação elegante, com um sorriso daqueles que contam tudo o que se precisa saber.
O sol se fez presente nos dois pares de olhos. Nunca mais usou a poltrona.
27/12/2009
Baile de Máscaras
As máscaras dançam ao som de tal música, música que é tocada pelo destino, ou acaso, se preferir. Todos estão felizes e as máscaras se completam. Acabada a música ou enfezados os participantes, as máscaras caem ocas e mortas no chão, frias. Então há uma surpresa: Outras máscaras já estão por baixo e assumem a dança.
Recomeça o baile e já não se sabe mais quem és, quem conheces, com quem dançastes.
Sim, a vida é um eterno baile de máscaras; eterno! Suas máscaras já estão prontas? Cuidado, a música vai começar.
Recomeça o baile e já não se sabe mais quem és, quem conheces, com quem dançastes.
Sim, a vida é um eterno baile de máscaras; eterno! Suas máscaras já estão prontas? Cuidado, a música vai começar.
23/12/2009
Mulher Dormindo Nua
No quarto de janela onde é sempre outono, os cabelos pretos estão esparramados na cama macia, cachos olorosos que dançam ao som da respiração.
O rosto fresco, de traços cortantes mesmo para uma vista insensível e calejada, faz com que se possa passar uma tarde inteira vendo-a dormir.
Passa os pés e pernas sob o lençol, que chia e treme em contato com a pele, bem como as folhas que farfalham lá fora.
E então esboça um sorriso quase invisível, misto de sono e fantasia, ameaça abrir os olhos e desiste com uma preguiça gostosa de se ver.
Agora se sabe por que nessa janela é sempre outono; não teve coragem de ir embora.
O rosto fresco, de traços cortantes mesmo para uma vista insensível e calejada, faz com que se possa passar uma tarde inteira vendo-a dormir.
Passa os pés e pernas sob o lençol, que chia e treme em contato com a pele, bem como as folhas que farfalham lá fora.
E então esboça um sorriso quase invisível, misto de sono e fantasia, ameaça abrir os olhos e desiste com uma preguiça gostosa de se ver.
Agora se sabe por que nessa janela é sempre outono; não teve coragem de ir embora.
Dos Sonhos Dormidos
Sonhos, na sua composição mais básica, são feitos de medos e de desejos.
Pode-se deixar de enxergar ou ouvir, mas de sonhar, nunca.
Uma hora teus olhos hão de cair e a mente consciente baixará guarda, então há o espetáculo de toda noite: Seu subsconconsciente dança sensualmente com toda a sua verdadeira e intocável essência, aquela que você ainda nem conhece.
Eis que dessa dança atemporal sonhos vão florir, sem regras, preceitos da sociedade ou etiqueta.
Surgem somente como as coisas são (ou deveriam ser), perfeitas para seu próprio ser.
Sem dimensões ou qualquer coisa abstrata e insignificante que use números.
Podem ser sim até sombrios e luxuriosos às vezes, mas serão sempre você, a parte que esconde.
Há quem diga que sonhos são um ralo da mente
Mas ralos são depressivos demais e cheiram mal
Portanto eu diria que sonhos são uma válvula.
Pode-se deixar de enxergar ou ouvir, mas de sonhar, nunca.
Uma hora teus olhos hão de cair e a mente consciente baixará guarda, então há o espetáculo de toda noite: Seu subsconconsciente dança sensualmente com toda a sua verdadeira e intocável essência, aquela que você ainda nem conhece.
Eis que dessa dança atemporal sonhos vão florir, sem regras, preceitos da sociedade ou etiqueta.
Surgem somente como as coisas são (ou deveriam ser), perfeitas para seu próprio ser.
Sem dimensões ou qualquer coisa abstrata e insignificante que use números.
Podem ser sim até sombrios e luxuriosos às vezes, mas serão sempre você, a parte que esconde.
Há quem diga que sonhos são um ralo da mente
Mas ralos são depressivos demais e cheiram mal
Portanto eu diria que sonhos são uma válvula.
14/12/2009
Aos Brasis
Viva o Brasil das calçadas encardidas e encantadoras, o Brasil dos contadores de história em botecos de cada esquina, dos cabeleireiros que falam de samba e política.
Viva o Brasil das crianças que jogam bola nas ruas, das moças que cozinham feijão cheiroso pro almoço, da vida severina, dos vendedores de tapioca e yakissoba.
Viva o Brasil do imigrante, do migrante e da malícia. Viva o jeitinho brasileiro e todas as fitas isolantes, gambiarras e trambiques. Viva o Brasil malandro, o Brasil moleque.
Viva o Brasil da corrupção sem dono, explicita, passiva e cordial, o Brasil dos homens com cueca milionária, dos covardes, o Brasil de todos os santos, todos os povos, todos os ladrões e todos os tolos.
E por fim, viva este e os muitos outros Brasis que batem no peito de cada um que aqui vive ou viveu um dia.
Viva o Brasil das crianças que jogam bola nas ruas, das moças que cozinham feijão cheiroso pro almoço, da vida severina, dos vendedores de tapioca e yakissoba.
Viva o Brasil do imigrante, do migrante e da malícia. Viva o jeitinho brasileiro e todas as fitas isolantes, gambiarras e trambiques. Viva o Brasil malandro, o Brasil moleque.
Viva o Brasil da corrupção sem dono, explicita, passiva e cordial, o Brasil dos homens com cueca milionária, dos covardes, o Brasil de todos os santos, todos os povos, todos os ladrões e todos os tolos.
E por fim, viva este e os muitos outros Brasis que batem no peito de cada um que aqui vive ou viveu um dia.
07/12/2009
Compartilhar Uma Vida
Compartilhar uma vida! É isso que hoje se esqueceu. Aliás, não se sabe mais compartilhar quase nada, quanto mais uma vida. Compartilhar uma vida pode ser assim, cheio desses rabiscos de ingenuidade, momentos tolos de criança e borrões impetuosos de ardência, com todo desejo rubro típico dos amantes; Sempre ouvir cada palavra do outro como se fosse a coisa mais fascinante, mas isso de modo natural, com aquele brilho nos olhos, as mãos inquietas e o sorriso querendo brotar!
Poder falar mil horrores e depois rir da própria ignorância, ouvir mais outros dois mil horrores e desfaze-los todos com um beijinho sincero na ponta do nariz. Isso! Isso que é compartilhar uma vida: Não ter controle algum sobre a vida do outro, mas saber que ele está ali interagindo e respondendo à sua vida. Não tomar rédea nenhuma, jamais, mas mostrar que a estrada é longa e que ocasionalmente você está ali, inabalável, mostrando que compensa, com a força que mais bem representa tudo isso: O amor.
Poder falar mil horrores e depois rir da própria ignorância, ouvir mais outros dois mil horrores e desfaze-los todos com um beijinho sincero na ponta do nariz. Isso! Isso que é compartilhar uma vida: Não ter controle algum sobre a vida do outro, mas saber que ele está ali interagindo e respondendo à sua vida. Não tomar rédea nenhuma, jamais, mas mostrar que a estrada é longa e que ocasionalmente você está ali, inabalável, mostrando que compensa, com a força que mais bem representa tudo isso: O amor.
À Minha Desconhecida
Eu quero passar o meu amor inteiro no teu, embora ainda não a conheça. Sei que você está por aí, escondida de mim, num típico jogo de criança que sempre acaba em risadas irresistíveis em tardes preguiçosas. Depois dos cafunés, das promessas eternas (e passageiras), dos milhares de minutos tentando te convencer de alguma bobagem, te dar cada detalhe do meu dia como um presente único e quando você tirar meus cabelos dos meus olhos, poder ver que você continua recém saída do ventre das minhas paixões, feito uma aragem de verão.
Te encontro (dia desses)
Te encontro (dia desses)
27/11/2009
O que é importante?
Às vezes parece que eu vou abrir os olhos e acordar aquele menino de sete anos, de novo, e toda essa loucura de mundo, essa agitação sem sentido, esses valores e regras que eu descobri aos poucos e com esforço, vão ser só mais um sonho sem sentido, daqueles que a gente esquece quando estamos fazendo algo extremamente importante, como brincar no quintal e ouvir histórias de avô.
18/11/2009
Maçãs
"Sofro, mas eu vou te libertar
O que é que eu quero
Se eu te privo
Do que eu mais venero
Que é a beleza de deitar..."
Raul Seixas - A Maçã
Não é mágoa, menina. Não. Nem ressentimento. Explico:
Quando se morde uma maçã que parece bem suculenta e sente-se na própria boca um inesperado suco de podridão, que vem do interior da fruta, é inegável e impossível não fazer uma cara de repulsa natural. E depois do nojo vem a exclamação: Num reflexo tão instintivo quanto a repulsa, joga-se a maçã ao longe. E assim foi.
Mas não culpo a maçã! Ai de mim! Não se pode culpar a maçã; O mundo é que a apodreceu por dentro, e por fora se criou a casca do orgulho, de uma beleza mascarada e volúvel, para enganar as bocas afiadas que a mordem; para protegê-la dos sentimentos reais, que tanto machucam! Ah! Maçã orgulhosa trancada no próprio lodo!
Você foi essa maçã. Maçãs foram feitas para encenar histórias de contos de fada! Maçãs mágicas que salvam vidas, outras envenenadas e ainda assim parecem todas iguais. Mas veja bem: só encenação, cuidado. O homem bem sabe o que acontece quando se morde uma maçã irresistível! Ah, Adão, tolo você de ter mordido antes de saber o que vinha dentro! Tolo!
Mas não culpo a maçã! Ai de mim! Não se pode culpar a maçã; O mundo é que a apodreceu por dentro, e por fora se criou a casca do orgulho, de uma beleza mascarada e volúvel, para enganar as bocas afiadas que a mordem; para protegê-la dos sentimentos reais, que tanto machucam! Ah! Maçã orgulhosa trancada no próprio lodo!
Você foi essa maçã. Maçãs foram feitas para encenar histórias de contos de fada! Maçãs mágicas que salvam vidas, outras envenenadas e ainda assim parecem todas iguais. Mas veja bem: só encenação, cuidado. O homem bem sabe o que acontece quando se morde uma maçã irresistível! Ah, Adão, tolo você de ter mordido antes de saber o que vinha dentro! Tolo!
08/11/2009
Milongas do Velho Preto
O preto curvado sai caminhando no chão de terra batida e senta no banquinho devagar, pois as pernas já são fracas. Suas rugas e seu cachimbo estão recheados de histórias.Com a mão trêmula alisa a barba branca, enquanto os mais jovens sentam-se no chão, em silêncio. Seu olhar é ancestral e penoso, mas não deixa de ser alegre. Todos esperam ansiosos.
Com as primeiras tragadas de cachimbo as velhas histórias começam a flutuar no ar, penetram os corações com as palavras humildes. Até os filhos do senhoril – filhos brancos, criados ao molde europeu, cheios de preconceitos – estão debruçados na janela do cativeiro, curiosos, enfeitiçados pelo conto.
Agora já não há cor de pele, nem diferenças, nem talheres de prata, nem casarão, nem etiqueta, nem nada. Ali só se via humanos, sentindo como humanos e vivendo coisas reais através das palavras gastas e arrastadas do preto-velho.
O velho foi deitar-se na cama de palha, satisfeito; Naquele dia alguma coisa mudou. Saíram todos dali meio abalados, todos quietos com os próprios pensamentos; Saíram dali de olhos baixos, com vergonha.
Estavam aprendendo a ser verdadeiramente humanos.
Com as primeiras tragadas de cachimbo as velhas histórias começam a flutuar no ar, penetram os corações com as palavras humildes. Até os filhos do senhoril – filhos brancos, criados ao molde europeu, cheios de preconceitos – estão debruçados na janela do cativeiro, curiosos, enfeitiçados pelo conto.
Agora já não há cor de pele, nem diferenças, nem talheres de prata, nem casarão, nem etiqueta, nem nada. Ali só se via humanos, sentindo como humanos e vivendo coisas reais através das palavras gastas e arrastadas do preto-velho.
O velho foi deitar-se na cama de palha, satisfeito; Naquele dia alguma coisa mudou. Saíram todos dali meio abalados, todos quietos com os próprios pensamentos; Saíram dali de olhos baixos, com vergonha.
Estavam aprendendo a ser verdadeiramente humanos.
22/10/2009
Do Mundo e dos Pesares
Não se pode chorar todas as lágrimas desse mundo tão salgado.
Invejei Atlas e quis sentir todo o peso do mundo nos meus ombros, como se isso fosse torná-lo mais leve.
Quantas vezes eu já não tentei..? E quantas mais eu já não senti?
Não é o mundo que pesa e sim as pessoas.
Mas o mundo é grande, como diria o poeta.
As pessoas não. Elas são pequenas e pesadas.
O mundo está coberto de penas tão pesadas quanto lágrimas verdadeiras.
Os pesares do mundo não cabem no meu colo, sou tão pequeno, sou tão pessoa.
Invejei Atlas e quis sentir todo o peso do mundo nos meus ombros, como se isso fosse torná-lo mais leve.
Quantas vezes eu já não tentei..? E quantas mais eu já não senti?
Não é o mundo que pesa e sim as pessoas.
Mas o mundo é grande, como diria o poeta.
As pessoas não. Elas são pequenas e pesadas.
O mundo está coberto de penas tão pesadas quanto lágrimas verdadeiras.
Os pesares do mundo não cabem no meu colo, sou tão pequeno, sou tão pessoa.
11/10/2009
Batem à Porta de Minha Vida
Sinto baterem à porta de minha vida. São pancadas fortes e certeiras que põe todos os cômodos da minha mente a tremer. Encosto na porta trancada e grito:
-Quem aí vem e o que me traz? – Minha voz rouca e cansada, pálida como a velha porta de dobradiças enferrujadas.
-Não saberás só espiando pela fresta, rapaz! – Uma voz doce e compassada, mas está misturada com o vento forte do mundo externo a mim; o mundo bárbaro.
É inverno na minha vida, quase sempre inverno. A minha vida tem um lago, quase sempre parado. O lago está congelado, mas há muita vida nas suas profundezas, pena que ninguém as pode notar. A porta torna a sacudir:
-Aqui fora é frio, tenho fome e teu lago é congelado. Deixa-me entrar. – Sopra outra vez a voz, agora desvanecendo, embalada em segredo, sendo diluída no frio das minhas incertezas.
-Tenho medo do soprar de suas palavras, me parecem tão nebulosas! Além do mais, estou confortável aqui, sozinho. – Digo eu, tiritando de covardia.
-Estou morrendo – A voz agora tão apagada quanto um bater de folhas no vendaval.
A chave está perdida em algum lugar, no fundo de algum baú ou gaveta. Tenho muitas caixas onde guardo lembranças e gavetas onde guardo memórias. Sei que algumas nunca mais vou abrir. Achei a velha e pesada chave, já quase esquecida.
Estou girando a chave devagar. A mão não treme mais e sinto que tudo pode mudar:
-Quem sabe não é o verão que chega à minha porta? Quem sabe o lago não se descongela? – Penso quase sorrindo, não fosse a tamanha ansiedade e os olhos atentos à fresta que começa se abrir. A porta resmunga ao ser aberta lentamente.
Os meus olhos estão acesos de esperanças. Olho e não vejo nada num primeiro momento. Penso em me trancar novamente, no perigo que corro. Eis que uma criatura de formas puras como o gelo se forma à minha frente, e num só sopro, num só hálito, me congela para sempre.
-Quem aí vem e o que me traz? – Minha voz rouca e cansada, pálida como a velha porta de dobradiças enferrujadas.
-Não saberás só espiando pela fresta, rapaz! – Uma voz doce e compassada, mas está misturada com o vento forte do mundo externo a mim; o mundo bárbaro.
É inverno na minha vida, quase sempre inverno. A minha vida tem um lago, quase sempre parado. O lago está congelado, mas há muita vida nas suas profundezas, pena que ninguém as pode notar. A porta torna a sacudir:
-Aqui fora é frio, tenho fome e teu lago é congelado. Deixa-me entrar. – Sopra outra vez a voz, agora desvanecendo, embalada em segredo, sendo diluída no frio das minhas incertezas.
-Tenho medo do soprar de suas palavras, me parecem tão nebulosas! Além do mais, estou confortável aqui, sozinho. – Digo eu, tiritando de covardia.
-Estou morrendo – A voz agora tão apagada quanto um bater de folhas no vendaval.
A chave está perdida em algum lugar, no fundo de algum baú ou gaveta. Tenho muitas caixas onde guardo lembranças e gavetas onde guardo memórias. Sei que algumas nunca mais vou abrir. Achei a velha e pesada chave, já quase esquecida.
Estou girando a chave devagar. A mão não treme mais e sinto que tudo pode mudar:
-Quem sabe não é o verão que chega à minha porta? Quem sabe o lago não se descongela? – Penso quase sorrindo, não fosse a tamanha ansiedade e os olhos atentos à fresta que começa se abrir. A porta resmunga ao ser aberta lentamente.
Os meus olhos estão acesos de esperanças. Olho e não vejo nada num primeiro momento. Penso em me trancar novamente, no perigo que corro. Eis que uma criatura de formas puras como o gelo se forma à minha frente, e num só sopro, num só hálito, me congela para sempre.
07/10/2009
Música Para os Olhos
Há uma música que faz muitas lembranças vibrarem diante dos meus olhos, que quase sempre ficam brilhantes e marejados; diria tristonhos se não fosse o leve sorriso, quase invisível.
Os olhos apontados para algum nada vão se alagando com a música e transbordam. Eis que um passado vai se formando aos poucos, percorrendo as trilhas umedecidas e salgadas que rasgam o rosto.
E agora os olhos já não são mais nada. Estão perdidos no torpor confortável da nostalgia e só sabem ver lembranças. Boas ou más? Não conseguem diferenciá-las, apenas olham como crianças curiosas; como andantes que nunca chegam a lugar algum.
Tudo é e tudo foi música.
Os olhos apontados para algum nada vão se alagando com a música e transbordam. Eis que um passado vai se formando aos poucos, percorrendo as trilhas umedecidas e salgadas que rasgam o rosto.
E agora os olhos já não são mais nada. Estão perdidos no torpor confortável da nostalgia e só sabem ver lembranças. Boas ou más? Não conseguem diferenciá-las, apenas olham como crianças curiosas; como andantes que nunca chegam a lugar algum.
Tudo é e tudo foi música.
02/10/2009
Desventurado Companheiro Póstumo
Junto todos os meus morangos mordidos com os meus sonhos quebrados e ilusões desfeitas e mexo tudo com todas as palavras inúteis que aprendi durante a vida e sorrisos arrancados; Então te encontro em alguma rua, por acaso – claro - e me misturo a essa rara receita de vida (será?).
Eu quero viver também e ver e sentir e... Mas eu nem te conheço ainda! O que vai pensar quando me encontrar pela primeira vez? Não sei, não sei. Nunca fui de parâmetros, mas tenho medo de não atender as expectativas que você criou por todos esses anos.
Quando eu era pequeno - nem faz tanto tempo assim - eu nem pensava em você. Digo, até que pensava, mas não tinha essa realidade chocante, iminente... Associava-lhe com os desenhos! Pensava o seguinte: Estou lá, e você me encontra. Numa rua qualquer, avenida, num esbarrão ou pedindo alguma informação.
Jamais pensei ter que correr atrás de você; jamais pensei em correr atrás de nada. Tudo sempre chegou até meus pés sem o menor esforço - e não digo isso como soberba não! É terrível - Agora encontro você tão insolúvel, emblemático e imaculado.
Ah, é você, futuro. Sempre você, não é mesmo? Ah, desventurado companheiro póstumo, preciso mesmo ir ao seu encontro? É rua ou avenida? Vai me encontrar desprevenido, na fila do pão, de chinelos com meia? Ou então nos encontraremos num refinado teatro, no intervalo da peça?
Você é cego, futuro, e eu não enxergo muito bem. Espero poder te encontrar, por aí, seja em taverna ou em tribo, assoviando, feliz, com aquele sorriso de criança; aí sim eu saberei que é você.
Eu quero viver também e ver e sentir e... Mas eu nem te conheço ainda! O que vai pensar quando me encontrar pela primeira vez? Não sei, não sei. Nunca fui de parâmetros, mas tenho medo de não atender as expectativas que você criou por todos esses anos.
Quando eu era pequeno - nem faz tanto tempo assim - eu nem pensava em você. Digo, até que pensava, mas não tinha essa realidade chocante, iminente... Associava-lhe com os desenhos! Pensava o seguinte: Estou lá, e você me encontra. Numa rua qualquer, avenida, num esbarrão ou pedindo alguma informação.
Jamais pensei ter que correr atrás de você; jamais pensei em correr atrás de nada. Tudo sempre chegou até meus pés sem o menor esforço - e não digo isso como soberba não! É terrível - Agora encontro você tão insolúvel, emblemático e imaculado.
Ah, é você, futuro. Sempre você, não é mesmo? Ah, desventurado companheiro póstumo, preciso mesmo ir ao seu encontro? É rua ou avenida? Vai me encontrar desprevenido, na fila do pão, de chinelos com meia? Ou então nos encontraremos num refinado teatro, no intervalo da peça?
Você é cego, futuro, e eu não enxergo muito bem. Espero poder te encontrar, por aí, seja em taverna ou em tribo, assoviando, feliz, com aquele sorriso de criança; aí sim eu saberei que é você.
24/09/2009
Andas Como Se Fosse Dona Do Mundo
Os olhos se faíscam contra os meus - Contra ou a favor, não sei dizer. Só posso ver que são olhos grandes e vivos; talvez somente curiosos e indiscretos; não importa agora, que o tempo está parado. Não pude ver nada além dos olhos, naquele primeiro e único momento de êxtase acidental.
Viro pra trás e vejo os cabelos enrubescidos. Eu diria que tinham a cor de uma ferrugem clara, – ah! que indelicado eu! – mas não, de enferrujados não tinham nada, pois cada cacho e ondulação dançavam; seguiam o ritmo dos murmúrios da multidão ou então orquestravam essa sinfonia de cidade grande.
Vejo-a lá embaixo, longe, indo à plataforma esperar o trem.
Olho como criança abelhuda e mal-educada. Ela anda como se fosse dona do mundo e do tempo! Flutua sob pobres mortais e arrasa cidades inteiras com uma beleza sacro-pecadora. Cada passo, cada embalo de seu corpo constituí um mistério; um segredo! Meus pés estão me levando até lá, atrevidos pés errantes.
Espero também o trem, pra onde quer que ele vá. Estou a três passos dos cabelos e olhos incompreensíveis. Pego no ar um cheiro inebriante pulando daqueles cachos, um cheiro que talvez só exista dentro de mim, um delírio bem imaginado. Ela sorri um sorriso quase invisível, pois sabe que estou ali e quem eu sou. Sabe tudo de mim! O sorriso não me diz nada! Sinto-me em desvantagem; exposto e bobo, como moleque que é descoberto fazendo arte.
Estamos de frente, dois passos de distância, dentro do trem. Os pequenos pés, incertos, encolhidos e bem juntos palpitam ou gargalham. Foragidos cruéis ou divindades humildes? Ela está me vendo sem olhar. Que diabo é esse olhar?! É desejo, ironia, cobiça ou escárnio? Insolúvel enigma, novamente. Ela é todo segredo. Uma esfinge! Sim, uma esfinge impenetrável e oblíqua.
- Devora-me, pois não lhe decifro! – Eu gritaria! Ela tem que saber que isso não se faz. É cruel e deleitável demais, vai contra as leis e experiências humanas! É pecado e benção, é infernal e paradisíaco! E olha e sorri – ou ri, não concede ao menos um pingo de suas verdades, se é que existem. Dou risada, creio que de mim mesmo.
Pela janela do trem vejo novamente os cabelos de tarde alaranjada, e já se pondo, eles se perdem em meio a tantos outros cabelos ordinários, tão corriqueiros. Os passos despreocupados, donos do mundo, vão ora certos ora incertos, embalando meus olhos. Quase sem respirar eu observo-a indo. Para nunca mais. Para sempre.
Viro pra trás e vejo os cabelos enrubescidos. Eu diria que tinham a cor de uma ferrugem clara, – ah! que indelicado eu! – mas não, de enferrujados não tinham nada, pois cada cacho e ondulação dançavam; seguiam o ritmo dos murmúrios da multidão ou então orquestravam essa sinfonia de cidade grande.
Vejo-a lá embaixo, longe, indo à plataforma esperar o trem.
Olho como criança abelhuda e mal-educada. Ela anda como se fosse dona do mundo e do tempo! Flutua sob pobres mortais e arrasa cidades inteiras com uma beleza sacro-pecadora. Cada passo, cada embalo de seu corpo constituí um mistério; um segredo! Meus pés estão me levando até lá, atrevidos pés errantes.
Espero também o trem, pra onde quer que ele vá. Estou a três passos dos cabelos e olhos incompreensíveis. Pego no ar um cheiro inebriante pulando daqueles cachos, um cheiro que talvez só exista dentro de mim, um delírio bem imaginado. Ela sorri um sorriso quase invisível, pois sabe que estou ali e quem eu sou. Sabe tudo de mim! O sorriso não me diz nada! Sinto-me em desvantagem; exposto e bobo, como moleque que é descoberto fazendo arte.
Estamos de frente, dois passos de distância, dentro do trem. Os pequenos pés, incertos, encolhidos e bem juntos palpitam ou gargalham. Foragidos cruéis ou divindades humildes? Ela está me vendo sem olhar. Que diabo é esse olhar?! É desejo, ironia, cobiça ou escárnio? Insolúvel enigma, novamente. Ela é todo segredo. Uma esfinge! Sim, uma esfinge impenetrável e oblíqua.
- Devora-me, pois não lhe decifro! – Eu gritaria! Ela tem que saber que isso não se faz. É cruel e deleitável demais, vai contra as leis e experiências humanas! É pecado e benção, é infernal e paradisíaco! E olha e sorri – ou ri, não concede ao menos um pingo de suas verdades, se é que existem. Dou risada, creio que de mim mesmo.
Pela janela do trem vejo novamente os cabelos de tarde alaranjada, e já se pondo, eles se perdem em meio a tantos outros cabelos ordinários, tão corriqueiros. Os passos despreocupados, donos do mundo, vão ora certos ora incertos, embalando meus olhos. Quase sem respirar eu observo-a indo. Para nunca mais. Para sempre.
14/09/2009
Dos Prazeres Humanos Não Divinos
Os prazeres! Carrascos e libertinos, conservadores e revolucionários! Ah! Como os prazeres são tão humanos! Sempre duais, irracionais e autodestrutivos! São atuantes modernos e refinados dos falhos cinco sentidos.
Aliás, prazer em conhecê-los! Sabeis que um dia vamos acabar, todos, e junto ao sepulcro podre, todos os nossos prazeres a cantarolar e roer nossa carne, bem como faziam em vida; vermes impuros e levianos que cantam sua glória, triunfantes.
Aliás, prazer em conhecê-los! Sabeis que um dia vamos acabar, todos, e junto ao sepulcro podre, todos os nossos prazeres a cantarolar e roer nossa carne, bem como faziam em vida; vermes impuros e levianos que cantam sua glória, triunfantes.
01/09/2009
A Paisagem Que Falava Sozinha
Estou aqui, mas ainda não sei bem pra onde ir.
Sabe como é. O céu anda eternamente nublado esses tempos
Tudo me parece meio indigesto, precisando de movimento; vida
Sinto que minha vida até agora foi só um prelúdio para algo maior
Tenho medo que essa seja uma sensação eterna, agonizante
Como se todo passo que eu desse fosse o primeiro passo
Imagine! Uma viagem toda feita só de primeiros passos!
Sim, eu sei, eu sei... Sei que não posso ficar parado aqui no meio, divagando, sem ao menos primeiros passos, preso entre o ir e o voltar, entre a preguiça e o tédio... é que...
É que eu parei pra ver a paisagem!
Juro.
... Não há paisagem?!
Sendo assim, eu sou a paisagem.
Pronto.
Sou a paisagem.
E o homem, paisagem espetacular que se tornou, ficou ali, chuva, sol e oceano.
Sabe como é. O céu anda eternamente nublado esses tempos
Tudo me parece meio indigesto, precisando de movimento; vida
Sinto que minha vida até agora foi só um prelúdio para algo maior
Tenho medo que essa seja uma sensação eterna, agonizante
Como se todo passo que eu desse fosse o primeiro passo
Imagine! Uma viagem toda feita só de primeiros passos!
Sim, eu sei, eu sei... Sei que não posso ficar parado aqui no meio, divagando, sem ao menos primeiros passos, preso entre o ir e o voltar, entre a preguiça e o tédio... é que...
É que eu parei pra ver a paisagem!
Juro.
... Não há paisagem?!
Sendo assim, eu sou a paisagem.
Pronto.
Sou a paisagem.
E o homem, paisagem espetacular que se tornou, ficou ali, chuva, sol e oceano.
25/08/2009
Eu Cheirava Lembranças na Gola da Camisa
Não eram lembranças vulgares ou mundanas, como um pedaço de suas costas ou seus pezinhos brancos; Não. Era algo nobre e bonito, daquelas coisas que fazem o peito estalar e se apertar todo: Eu não farejava somente uma pessoa ou um corpo ali naquela gola; Eu cheirava uma época inteira! Cada vez que meu nariz se inflava para apurar o aroma sutil, os olhos fechavam-se num movimento de reverência. Reverência e uma pitada de saudades e amadurecimento.
Então farejei sons, momentos, conversas, palavras de amor e olhares. Era eu um garimpeiro da própria lembrança. Garimpeiro simplório e sensível, que narrava com orgulho a glória de seus primeiros e reais achados: Belos diamantes, rubis e alexandritas. Verdadeiros frutos de uma época extraordinária da minha vida, onde me sentia completo e encontrado. Respirava o mais puro romance, de fato que diferente dos romances literários, pois era real e um tanto mais despretensioso.
Então farejei sons, momentos, conversas, palavras de amor e olhares. Era eu um garimpeiro da própria lembrança. Garimpeiro simplório e sensível, que narrava com orgulho a glória de seus primeiros e reais achados: Belos diamantes, rubis e alexandritas. Verdadeiros frutos de uma época extraordinária da minha vida, onde me sentia completo e encontrado. Respirava o mais puro romance, de fato que diferente dos romances literários, pois era real e um tanto mais despretensioso.
20/08/2009
Sobre o Ligeiro Garoto Embaraçador de Vidas
Ah! Maldito carrasco dos andares sem destino! Ah! Intrometido! Que fazes você, senão balançar minha vida, derrubando todos os meus enfeites e condecorações, tão bem escolhidos, estrategicamente posicionados?
Os ornamentos da minha vida, todos bagunçados e fora de lugar! Balança e balança outra vez! Meu tolo universo, recém formado, parece então não existir e fica tudo atirado ao chão, cabendo a mim, e somente a mim, já fatigado, colocar tudo no lugar.
Que é você, espertalhão, senão uma criança desordeira e malvada?! Sim, uma criança malvada e manhosa, que vem e me espeta um palito no coração quando aborrecida. Não farei o que quer, percebes? Não farei, sou livre.
Ria, ria mesmo, ardiloso moleque, pois não preciso mais de teus palpites e planos mirabolantes. Vou seguir. Sozinho. Além do mais, pensas que é senhor de algo aqui na terra! É mesmo um cínico. Nunca lhe fora dedicado um romance, um épico, nem ao menos, um livrinho de poesia. Não passas de um irônico marginal.
E que os ingênuos me perguntem:
-Ó, como pode ser assim de tudo má uma criança, que é fresca na vida? Exageras meu caro!”
E então responderia, com cordial benevolência, uma pitada de desgosto e brilho nos olhos; talvez um meandro de lágrimas:
-Meus caros tolos, não sabeis o nome deste brejeiro mal-criado que chamamos, educadamente, de Acaso.
Os ornamentos da minha vida, todos bagunçados e fora de lugar! Balança e balança outra vez! Meu tolo universo, recém formado, parece então não existir e fica tudo atirado ao chão, cabendo a mim, e somente a mim, já fatigado, colocar tudo no lugar.
Que é você, espertalhão, senão uma criança desordeira e malvada?! Sim, uma criança malvada e manhosa, que vem e me espeta um palito no coração quando aborrecida. Não farei o que quer, percebes? Não farei, sou livre.
Ria, ria mesmo, ardiloso moleque, pois não preciso mais de teus palpites e planos mirabolantes. Vou seguir. Sozinho. Além do mais, pensas que é senhor de algo aqui na terra! É mesmo um cínico. Nunca lhe fora dedicado um romance, um épico, nem ao menos, um livrinho de poesia. Não passas de um irônico marginal.
E que os ingênuos me perguntem:
-Ó, como pode ser assim de tudo má uma criança, que é fresca na vida? Exageras meu caro!”
E então responderia, com cordial benevolência, uma pitada de desgosto e brilho nos olhos; talvez um meandro de lágrimas:
-Meus caros tolos, não sabeis o nome deste brejeiro mal-criado que chamamos, educadamente, de Acaso.
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