17/01/2011

Texto Popular


Água mole em pedra dura tanto bate até que a pedra bate de volta! Pois, não que o mundo seja cruel; não! O mundo é cru, apesar de as coisas estarem esquentando ultimamente.

Deus tem dó de quem cedo madruga, pois este não vê o sol nascer e nem ouve um Blues debaixo do céu pelado e frio, sem lua. Quem cedo madruga não sabe que os dias passam rápido demais.

Mais vale nenhum passarinho na mão e todos no ar; Mais vale ficar com as mãos livres para segurar as mãos do teu velho, passá-las no rosto da sua garota e segurar o amigo que bambeia.

Em terra de cego quem tem olho é estranho. Aliás, todos são muito estranhos e, conheço muitos casos em que, mesmo munidos de olhos e uma visão de águia, andam muito, muito cegos.

16/01/2011

A Fuga

Na fuga em um gole de café eu vejo na xícara

dois olhos sem açúcar e,

como num susto,

acabo
me encontrando.

04/01/2011

Trinta e Sete

-Até logo.
E deu dez passos a moça de vestido colorido.

Em dez passos arranjou dez motivos e meio para nunca mais voltar.
Mais dois passos e assim, nesta dúzia distante, sentiu-se observada e virou para trás.
Avistou uma boca e na boca um sorriso. Trinta e dois dentes, duas mãos firmes e quentes enfiadas nos bolsos e um brilho nos olhos.

Trinta e sete bons motivos para voltar.

Não que fosse volúvel, mas sabia contar:
Saudades misturada com boca, sorriso, mãos firmes e brilho no olhar, ah! Isso tudo era sempre uma ótima desculpa para relevar outros tantos motivos que pareciam – e só pareciam – tão errados.

30/12/2010

Poema Bobo

Vem cá! vem sim,
que eu te enrosco em mim,
que eu dou um nó com meu pé no seu
que eu te falo feito homem louco de sede: Vem cá!

Que eu te pego pelos cabelos
que a gente se afoga em beijos
que a gente naufraga nas horas
que a gente troca exageros
E eu até te escrevo um poema banal
com as rimas mais tolas
e jogo uma flor no seu quintal

Que você me fale absurdos:
que nem sente saudades
que a gente não dá
mas vem;
Vem cá!

28/12/2010

E agora, Sol?

-Olha... O Sol está raiando.

Falou isso de tal modo que parecia errado o sol raiar;
E era errado mesmo.

Amanhecer era absurdo depois de uma noite onde não existiu o tempo
Era contra as regras do nosso mundinho sem regras

Era um sistema solar inteiro contra nós

26/12/2010

C&C

Se há uma saída de emergência
também há uma entrada de emergência.

Tenho muitas portas

e janelas também

(fica à gosto da invasora;
invasora permitida, diga-se de passagem)

Sou quase uma loja de Casa & Construção

22/12/2010

Brinquedos Quebram Logo

Dei-lhe uma porta para o meu mundo inteiro, mas pegou a chave, que era uma fina agulha, e a jogou no palheiro de sua mente sinuosa.

Depois tacou fogo no palheiro tentando achar a agulha-chave.

A chave era de plástico.

A porta não.

04/12/2010

01/12/2010

Oração

Não, Deus, eu não consigo me machucar mais.

Cansei de toda essa brincadeira de liberdade. É sério, Deus, não ria! Não me machuco e nem escrevo mais sobre essas bobagens de corações re-remendados.

Deus! Sou livre, mas e aí? Ainda outro dia Johnny Cash conversava comigo: Liberdade não é nada... Prisão é andar sozinho pelo mundo.

Deus, será que eu fiquei duro ou as pessoas que perderam a coragem?

Vou deixar o mundo (pelo o menos o meu) em paz. Como diria o velho Drummond: “Não faças versos sobre acontecimentos.” “Não dramatizes, não invoques, não indagues. Não percas tempo em mentir.”

Deus, você já leu Drummond?

E agora, Deus?

19/11/2010

Liberdade a Dois

 
Liberdade a dois é um estado de espíritos; namoro é contrato formal, chato, cheio das quebras.
Liberdade a dois é ter o direito de rir das próprias idiotices; é lamber a amargura que o outro lhe derrama e dar um sorriso sacana; é poder ser e deixar o outro ser sem medo; é se deliciar nos passos do outro, como uma dança: Apenas movimentos e sensações, sem ganhador nem perdedor.

Liberdade a dois é, sobretudo, olhar para o outro como se ele fosse sempre uma libertação e nunca uma prisão voluntária. Vemos tantos relacionamentos baseados na lei do controle, na lei de quem poda mais o outro, de quem se acorrenta mais.

Liberdade a dois é como se fossemos estradas infinitas que se cruzam bem no ponto do amor. Estradas que podem se distanciar o quanto quiserem, mas sempre vão ser uma só encruzilhada.

16/11/2010

Poeta

poeta (é)
(latim poeta, -ae)
adj. s. m.
1. Que ou aquele que sente e sabe que sente
2. Aquele que consegue se encharcar facilmente na essência de todas as coisas.
3. Que ou quem devora emoções e sensações.
4. Pop. Vagabundo.
Feminino: poetisa.

12/11/2010

Do Garoto Que Não Sabia Se Apaixonar


Não era um garoto da cidade. Vinha do campo, dos chãos de terra batida para os chãos de terra abatida. Em menos de dois meses pode perceber que tudo era muito avassalador na cadência da cidade, principalmente as garotas.
Quantas paixões! Elas estouravam como as espinhas recém chegadas em seu rosto tão jovem, tão fresco. As espinhas ele podia entender e já nem se assustava quando apareciam, mas as paixões... Ah! Isso ele não podia conceber nem teorizar.
Começava com uma ansiedade que o atacava no meio da tarde, como se um mosquito vagasse dentro de seu peito. O coração parecia cavalo a galope e as mãos ficavam inquietas e suadas. Era ela, a paixão, que anunciava seus sinais. Então não olhava muito para os olhos das pessoas, pois tinha a certeza que perceberiam. Parecia tão óbvio!
Não demorava ser atacado também logo ao acordar, com a imagem daqueles dois olhos cor de tempestade na mente. Os sintomas pioravam rapidamente e então rolava de um lado para o outro da cama sem conseguir dormir. Na mesa de café da manhã seus olhos vagavam no nada e mal sentia fome.
Seria isso a paixão? Tinha que fazer algo, mas o quê? Ele já tinha visto nos filmes que o romântico se dava mal, que o mocinho era desprezado pela moça e só ganhava um beijo no final, depois de ter tomado alguns tiros. Sim, ele sabia o que tinha que ser feito, algo mais dolorido que tiro: Era entregar-se sem ceder, puxar e empurrar, dar sem dar. Como doía! Ah... Como doía!

10/11/2010

Sobre Vacinas e Olhos Acanhados

Você é uma garota toda vacinada e eu sou um cara cheio dos remendos. São diferenças sutis.
Talvez toda essa vacina e todo esse remendo sejam coisas totalmente desnecessárias. O pior é que sabemos disso – ou deveríamos.
Tuas vacinas correm no teu sangue e meus remendos são tão antiquados. Você usa relógio no pulso e eu só me perco nas horas; nas tuas horas!
Acontece que naquela noite nublada parece que havia uma parede de vidro entre nós. Adoro quebrar paredes, mas tive receio que algum estilhaço te cortasse e não queria sujar seu rosto com as mãos rasgadas. Num relance eu vi seu olhar através do vidro frio e embaçado. Teus olhos me pareceram duas portas entreabertas tão imponentes e convidativas.
Aliás, teus olhos! Que são essas duas pedras negras? Teus olhos me puxam e ao mesmo tempo me empurram. É como se estivesse bêbado no meio dos seus mares; cada olho um oceano.
Desbravar teus mares, te arrancar desse seu passado vilão com um sopro só, mas você mora tão longe! Arrancaria essa parede, abriria essas portas que são teus olhos, me sentaria à mesa de seu salão secreto e acenderia a lareira, pois os tempos andam frios.
Então não existiria mais vacina, passado ou remendo. Haveria vinho, haveria chama, haveria nós.

Andar, Andar


Eu ando por aí fingindo ter aonde ir. Ando de passo breve, como se tivesse algo importante a fazer; como se corresse atrás de um propósito real, um sonho incerto.

Ando sem destino como se fosse encontrar alguém que eu ainda não conheci. Já me sinto até um pouco atrasado... uns anos talvez.

06/11/2010

Texto Que Não Existe

Cabelos pretos, ela vem e senta em cima da minha mesa, sorrindo faceira; não me deixa escrever. Sou praticamente obrigado a largar a caneta e a folha, que voa para o chão, começo a rabiscar em sua pele com as tintas de um beijo e cada dedo vira um pincel dançando bêbado nas curvas desta fabulosa tela branca de olhos negros.
Rabisco em idiomas que não existem, com palavras que não devem ser e que nunca foram inventadas. Ela parece não se importar muito com a gravidade dos idiomas ou das palavras, pois continua com aquele sorriso meia lua e os olhos cerrados, como se imaginasse as histórias que conto no papel de seu corpo.

Literal

Ando meio literal demais esses dias:
Vejo sorrisos no rosto das moças
e acho que elas estão felizes

28/10/2010

Diário de Óculos

Tudo anda muito embaçado. Óculos são uma farsa
mesmo de óculos não consigo entender o que as pessoas dizem
quero ver de verdade
(nem consigo mais rimar; malditos óculos)

Eu tiro os óculos no meio da rua só pra ver se te confundo com alguém.
assim engano minhas retinas por três segundos
e meio

Um óculos jogado no vão da cama, lençol amarrotado com dois tipos de suor. O amor não usa óculos.

Não
acredite
em
óculos.

27/10/2010

Menina Colorida

Ela tem cabelos castanhos tão negros, tem olhos castanhos tão pretos!
Dá risada, diz que não vejo as cores direito! Como posso ver suas cores se sempre estou distraído demais buscando não-sei-o-quê no céu da sua boca? Como posso saber o que é castanho e o que é preto se estou ocupado demais caminhando nas deliciosas trilhas da sua alma?
Eu – sim, admito – eu já pesquei no céu da sua boca. Eu – sim, eu mesmo – já quis me perder nas tuas paragens, sentar na beira das suas estradas e observar as paisagens da sua vida, do seu jeito de ser.
Mas prometo que presto mais atenção nas cores!

19/10/2010

Previsão do Tempo

Semana de tempo feio, talvez chova no sábado.
Será que chove?
Teus olhos estão sempre tão nublados.
Será que chovem?

Se você chover em mim eu juro
que não tenho guarda chuva;
que não tenho galochas;
que ando árido demais esses dias

12/10/2010