28/10/2010

Diário de Óculos

Tudo anda muito embaçado. Óculos são uma farsa
mesmo de óculos não consigo entender o que as pessoas dizem
quero ver de verdade
(nem consigo mais rimar; malditos óculos)

Eu tiro os óculos no meio da rua só pra ver se te confundo com alguém.
assim engano minhas retinas por três segundos
e meio

Um óculos jogado no vão da cama, lençol amarrotado com dois tipos de suor. O amor não usa óculos.

Não
acredite
em
óculos.

27/10/2010

Menina Colorida

Ela tem cabelos castanhos tão negros, tem olhos castanhos tão pretos!
Dá risada, diz que não vejo as cores direito! Como posso ver suas cores se sempre estou distraído demais buscando não-sei-o-quê no céu da sua boca? Como posso saber o que é castanho e o que é preto se estou ocupado demais caminhando nas deliciosas trilhas da sua alma?
Eu – sim, admito – eu já pesquei no céu da sua boca. Eu – sim, eu mesmo – já quis me perder nas tuas paragens, sentar na beira das suas estradas e observar as paisagens da sua vida, do seu jeito de ser.
Mas prometo que presto mais atenção nas cores!

19/10/2010

Previsão do Tempo

Semana de tempo feio, talvez chova no sábado.
Será que chove?
Teus olhos estão sempre tão nublados.
Será que chovem?

Se você chover em mim eu juro
que não tenho guarda chuva;
que não tenho galochas;
que ando árido demais esses dias

12/10/2010

27/09/2010

Blues Sem Saída

                                                   Fonte da Imagem: http://br.olhares.com/o_homem_de_chapeu_foto1899310.html

Talvez eu seja mesmo um Blues; Por isso as ruas tão sujas, as pessoas tão surreais e o café sempre mais frio do que o normal, rodando no copo, enquanto olho pela janela.
As horas sempre demoradas, os caminhos confortáveis sempre os mais escuros e aquele gingado incerto no andar.  Olhos meio cerrados numa noite sem guarda-chuva, pensamentos nublados; mãos no bolso.
Me falam nos rápidos esbarrões pela rua:

-Cara, você nunca dorme?

Mas mesmo que eu dormisse, mesmo que eu cantasse Be-Bop-A-Lula ou O Samba do Arnesto; ainda assim eu seria um Blues.
Um Blues sem saída.

11/09/2010

Diário de Ilha e Biscoitos

Os biscoitos que ela fez ontem ainda estão no forno. Duros e meio antipáticos, mas nada que um bom vinho barato não resolva. O vinho dissolve muitas coisas, vocês sabem.

Estava tocando um blues, todo chiado de vitrola, aquele blues de voz rouca, e aí me perguntei: Como sair desta pequena ilha que eu mesmo – não sei como – me enfiei?

Até parece que eu tenho só dois metros de espaço; um passo pra cá, outro pra lá e vice versa eterno, como um relógio tic, tac, tic, etc.

Outro dia fazia frio e eu decidi sair da ilha. Saí sozinho, quinta-feira deserta.  Me sinto mais sozinho num bairro habitado por fantasmas do que num quarto vazio.

Penso que um dia você e seus cabelos cheirosos podem chegar aqui com marreta e quebrar meu relógio, quebrar meus dois metros mentais, quebrar esses biscoitos tão duros que você faz.

03/09/2010

Histórias Tristes de Violão

I
Um garoto e um violão. Notas abafadas, a vida é sufocada nos barracos.  Até que ele está pegando bem. Uma tarde quente de sol e as cordas arrebentam por causa do fogo. Não há pinho que resista a um incêndio de tais proporções.

II
Volta na rua escura. “Será sempre assim, violão?” – Pergunta difícil. As mãos calejadas de tocar: Ele só três cordas tem. Como alguém toca só de três cordas? – Pergunta o doutor em música; Tocaria até com meia corda, doutor. Pra ele é fácil; toca a vida com só uma refeição ao dia.

III
Um violão quebrado em cima da mãe. Um pai bêbado. A menina que ganhou o violão encolhida treme, como um lá menor. Difícil fazer os acordes, os dedos doem. Difícil afinar o violão quando sua mãe vive chorando pelos cantos.

29/08/2010

Gramática da Alma


Por que estes sorrisos velados e estas faces rosadas e estes cinismos cítricos e essa acidez sensual e estes desprezos estratégicos e estas aparições programadas se nem ao menos sabe se gosto de bacon ou não?
Ela só sabe que eu uso a conjunção aditiva “e” ao invés de vírgulas (em momentos nervosos) e que escrevo em fonte Arial tamanho 12. Minha alma não é Arial; não é tamanho doze; não tem conjunção aditiva; não tem “e”. Nem gramática a coitada da alma tem.
Ah, se tivesse! Pela Gramática da Alma esta mulher seria um erro de ortografia épico, um pleonasmo irritante, uma palavra de baixo calão ou, no máximo, um parêntese desnecessário. A alma –Que seria doutora letrada nas paragens da afeição– riscaria um “X” bem vermelho no meio de sua testa; Atestaria: Esta mulher não.
Não existe gramática para as nossas almas. Talvez por isso esta e tantas outras desconhecidas passem o resto da vida com homens sem-sal, se queixando para as amigas. Eu talvez continue sempre com essas pessoas mal conjugadas, como verbos sem concordância; almas dissonantes nas minhas frases tortas de afeição, de carinho gratuito.

02/08/2010

A Gente

A gente não é agente. Ser agente da própria vida é agir. A gente é reagente. Quem só reage nunca age; coage, no máximo. Então, ajamos! Seremos os ventos que balançam folhas e cabelos, casas e – por sorte – corações.

25/07/2010

Mágoas Mortas

Entrou com pés silenciosos, pediu perdão e chorou. Saiu vinte e tantas toneladas mais leve. O irmão continuou calado, de olhos fechados, estirado no balcão gélido. Afinal, antes tarde do que nunca.

20/07/2010

Exagero

Falo gota
Ela diz oceano
Falo cheiro
Ela diz França
Falo árvore
Ela diz ecossistema complexo
Falo estrela
Ela diz universo infinito
Falo uma letra
Ela fala Literatura Anglo-Saxônica
Falo um acorde
Ela diz orquestra filarmônica
Falo um detalhe
Ela fala todos eles
Falo azar
Ela diz amor
Falo sorte
Ela diz amor
Falo amor

... e então ela não diz nada.

Recado em Papel de Pele

Numa segunda-feira de sol você rabiscou toda minha pele como um guardanapo atacado por ansiedade súbita. Traçou milhares de linhas incertas, escreveu sonhos de criança, riscou desenhos disformes e multifacetados, fez o jogo-da-velha, listou teus desejos, pintou três setes e fez até desenho de casinha.
Num domingo de frio conseguiu borrar meu papel-de-pele com lágrimas mais ou menos salgadas e um tanto que esquizofrênicas (não me atreveria a dizer falsas). Diluiu-se na minha frente e apagaram-se as linhas da minha mão. Mas a mão não se apaga, sabes disso.
Tenho tinta de sobra e papel-de-pele é o que não me falta e a mão rabisca, pinta e borda. Também tece aqui um último viva:
Saúdo-te, ó atriz principal dos meus rascunhos!

01/07/2010

Uma Velha Conhecida dos Homens



Muito se fala sobre a morte desde qualquer tempo, pois ela nasce com a vida e acaba por si só, basta-se. Toda família conhece o seu mecanismo, os ritos e passagens e etc, etc, etc. Deixemos as entrelinhas para os filósofos, cientistas, monges e avôs. Cabe-me apenas o relato de como conheci esta senhora tão ambígua. Censurem-me caso me exceda nos ramos dos bons homens citados acima.
O coração do Tio Marcos parou sem avisos prévios numa certa manhã de segunda-feira, seguindo o exemplo do dono, preguiçoso profissional. O velório foi até que animado se comparado a tantos outros que vi posteriormente. Vários tios lembraram-se das glórias do “Marcão”, como quando cantava o hino da Itália bêbado em cima da mesa, a piada do dedo quebrado, a mágica do papelzinho e tantos outros feitos quase heróicos.
Eu não podia entender toda aquela choradeira das mulheres da família e minha mãe que se mostrava tão pálida e sentimental. Também fiquei confuso com os trajes de garçom que os homens usavam. A mente de uma criança tende a ver fantasia em tudo e mais que isso: Crianças extraem conhecimento de qualquer situação, habilidade que é esquecida com o passar dos anos.
Conseguia olhar a cena como se fosse algo belo, misterioso e engraçado, tudo bem ao estilo do meu falecido tio. Pensei estar em alguma peça de teatro ou brincadeira de televisão; O tio Marcão deitado ali? Ah! Só podia estar tramando alguma e eu me revirava em pensamentos tentando adivinhar a surpresa. Fuçando em pensamentos tolos achei um que se destacou: A morte. Um tanto mais crua que as de desenhos animados e livros de história, mas ainda sim a própria. Num súbito tomei conhecimento de tudo: Meu tio morrera.
Primeiro vem surpresa e então a emoção. O coração tenta gritar “Mentira!” bem ao modo de criança contrariada, que tenta impedir uma verdade iminente, inevitável. As lágrimas rolam, as pernas bambeiam e o lábio treme. Era aquele mesmo sentimento de quando eu fazia algo que vinha a me arrepender ou magoar alguém, só que muito mais forte. Era tristeza misturada com saudades ainda não sentida. Quantas descobertas em tão poucos minutos! Agarrei-me nas pernas de meu pai, com medo que acontecesse com ele também.
Mesmo emocionado fiquei ainda meditando, tentando calar o coração para entender tudo melhor. Num estalo minha jovem mente se iluminou e tirei dali uma explicação confortável: Não era meu tio ali! Não era e ponto. Quis gritar isso a todos, mas a voz ficava presa no peito. Claro que não podia ser ele! Como não viam isso? Se fosse o Tio Marcão, provavelmente estaria dançando com uma garrafa de cerveja na mão, de sorriso fácil e bêbado, contando piadas obscenas e engraçadas para os outros tios. Ele não estava ali, sabia disso com toda a sábia certeza de cinco anos de idade.
Será mesmo que era aquilo a morte? Sim, aquela morte tão chorada e dolorida que eu ouvia falar? Eu com tão poucos anos de idade já desconfiava da morte e seus desígnios. Parecia-me tão inofensiva e pacífica! Além do mais era cheia de flores e pessoas. Mais parecia uma festa. Como poderia aquilo ser trágico? Até hoje me falta essa resposta.

11/06/2010

Teto de Vinho


Ela dançava em cima da lataria de um carro azul abandonado naquele campo. Os cabelos mais ou menos presos fugiam do elástico com os pulos e giros dos braços e sorrisos abertos. Olhos virados e a sensação de que o mundo é um cisco aos seus pés! Há quanto tempo que eu já não tenho dezessete anos e duas garrafas de vinho em uma noite fria quase estrelada? Igual “aquelas de filme”, como diria ela.
Com o dedo gelado me apontou alguma estrela que não existia e exclamou “-Que linda!” numa voz mole e rouca. Falávamos muitos sobre as coisas dos céus. Entre uma e outra golada eu também olhava fascinado pro céu cinza e via constelações inteiras sem saber se estava fingindo ou não. Éramos jovens, portanto capazes de ver estrelas imaginárias feitas de vinho ou paixão; tanto faz.

-Essas luzes bonitas na grama, elas existem?
-Sim, acho. São vaga-lumes.
-E o que fazem eles aqui?
-Cantam e, hm, iluminam e dançam.
-Sabia!
-O quê?
-Teus olhos são vaga-lumes!

Que risadas bêbadas e amáveis! Que noite! Dividíamos um único cachecol, tão enlaçados estávamos. As calças jeans chiavam juntas, baixinho e ora ou outra o velho capô estalava. A lua também estava ébria e dançava transfigurada no céu. Hoje penso que os vaga-lumes são realmente luzes que vagam por aí, justamente como esse par de olhos que conheci.

06/06/2010

Se Não Senão

se você é viajante
se toca ou dirige
se contesta e protesta
se parte corações
se toca violino
se mata moscas
se gosta do céu
se escreve contos
se sonha ou inveja
se conta o tempo
se veste de seda
se não come bacon
se compõe poemas
se fala ao público
se joga dados
se trabalha e estuda
se canta canções
se morre e mata
se tem bons livros
se gosta de azul
se pinta paredes
se veste couro
se conta piadas
se destaca em algo
se alcança um prêmio
se dança valsas

nada disso importa
                                                                   [senão amar]
se não amar

16/05/2010

Mulher e Tarde Dormindo Nuas


Na janela do quarto onde é sempre outono, cabelos pretos estão esparramados na cama macia. São cachos olorosos que parecem dançar junto à respiração suave da moça adormecida. O relógio está parado, estático, sem tique e sem taque e a cama se esforça para não ranger. O gato foi paquerar lá longe e o cão adormeceu. Ninguém quer e ninguém pode acordá-la, pois seria cruel, um ultraje; seria pecado!
O rosto é fresco e enrubescido como um fim de tarde envergonhado. Possui traços que entorpeceriam até mesmo uma vista bruta, calejada e infeliz. Ela, sem saber, faz com que se queira atravessar uma tarde inteira vendo-a dormir.  Assim age o sol enquanto vai indo se por, tentando contemplar o espetáculo com um soslaio atrevido. Não por conta das formas ou curvas, do hálito quente ou das mãos perfumadas, mas sim pela cena retratada ali; parece até um quadro  barroco, vivo.
Alonga-se toda de modo preguiçoso ainda dormindo. Passa os pés e pernas sob o lençol creme que chia e estremece em contato com a pele branda, bem como as folhas que farfalham lá fora; Invejosas que tentam acordá-la! Está nua sim, é bem verdade; porém mesmo despida não transparece vulgaridade ou qualquer vestígio humano. Daí a inveja das folhas: Não é nu banal que acontece aos montes; é nobre, é nu de floresta virgem.
Então esboça um sorriso quase invisível, misto de devaneio ou fantasia e se estica inteira outra vez. Ameaça abrir os olhos com um bocejo longo e mudo, mas logo desiste com uma preguiça contagiante e esplêndida. Acomoda o corpo no lençol desarranjado e os cabelos escuros pendem da borda da cama, como se fossem derramar-se por sobre o chão. Ah! Como dorme esta mulher!
Agora sei por que nessa janela é sempre outono: Nunca teve coragem de ir embora. Com todos estes pensamentos em mente, termino de escrever o bilhete, então o leio mais uma vez e antes de colocá-lo ao lado do travesseiro as palavras dobram seu peso:
“...mas não sou outono não, mulher! Quando acordar estarei indo para um longe incerto, com olhar tão afrouxado quanto agora; Só que não verei mais tua flora de rasas relvas ou os campos de trigo de tuas costas; nem mesmo os montes rosados que são teus seios. Só verei a vida crua tão nua quanto você, rolando pelos trilhos, passando dolorosa e agradavelmente pela janela do trem.”

04/05/2010

As Bolsas das Mulheres Nubladas


Ela descia a rua cinza e era tão cinza que até me parecia um blues; Toda nublada e com perfume Avec não-sei-o-quê.
-Ei! ei, que leva aí em bolsa tão grande, garota? Mundos inteiros? Mundos machucam, você sabe; Tem até os olhos marejados! Se você correr o salto te machuca o pé, sabes disso, menina!
E me responderia, talvez com um quase sorriso; talvez sem falar nada:
-Levo mil e poucas desculpas esfarrapadas e rasgadas de amor, batom, algumas dúzias de sorrisos indecifráveis e um pequeno bichinho de pelúcia gasto por lembranças.

Ah, claro! Será por isso que as mulheres usam bolsas tão grandes?

27/04/2010

Cartão de Feliz-Despedida


 
      Cartões de aniversário soam como despedidas. E as despedidas se amontoam na caixa empoeirada em cima do meu velho armário. Tão empoeirada quanto eu, que gasto por todos esses 86 anos de cartões lhes escrevo este último.
       O espaço da minha caixa de sapatos já se acabou, como o curto espaço da vida já também não me cabe assim, com tanta idade. Portanto, meus amores, só me resta espaço para esta última despedida em belo cartão de aniversário!


       Adeus, meus amores, adeus.


Foi-se encontrado o cartão cuidadosamente colocado ao lado do copo d’água no criado mudo. A mão que o escrevera já não era mais a mesma: Mesmo embaixo do quente cobertor lhe faltava calor; havia lhe escapado a força da vida.
Neste momento algumas lágrimas quentes caíram sob o assoalho de madeira do quarto. Uma brisa fresca e breve balançou as folhas do jardim, que estalaram e chiaram baixinho, compadecidas.

25/04/2010

Sobre o Seu Vizinho Amargo e Muitos Outros

Vê, estamos aí andando pelo mundo, com a oportunidade constante de conhecer e trocar experiências com pessoas exclusivas a cada esquina, a cada fila de cada banco. A cada dez passos pessoas inexploradas e universos inteiros que anseiam por descobrir e serem descobertos.
Hoje em dia, principalmente por conta do imediatismo da internet, tem-se concretizado uma nova maneira de ser mimado, que é o desinteresse imediato pelas pessoas e pela essência inexplorada que se esconde ali, atrás dos olhos do ‘seu José’, porteiro da empresa, que há vinte anos sente que não existe pois ninguém o vê e ninguém quer ser olhado por ele; por isso abaixa a cabeça.
Não entendo por que o Brasil, um país de tantas cores, calores e culturas, conserva essa atitude tipicamente européia de empinar o nariz, pisar em tudo quanto é gente que considera inferior, maltratar o garçom, desprezar o porteiro do prédio e gemer sempre um “bom dia” penoso, sofrido.
O século XXI é tido como o século da comunicação. Temos a internet numa expansão absurda, a televisão dentro das ocas indígenas e tudo o mais. Eis o ponto: O homem, com toda sua parafernália tecnológica consegue usar isso contra si mesmo, tornando-se cada vez mais incomunicável.
No ônibus todos vidrados nos jogos e aplicativos dos celulares, ouvidos enfiados no fone. Completamente imersos num mundo construído pela própria visão curta e mimada. O mundo e as pessoas estão lá fora, despercebidos e sabotados pelo comodismo do fulano.
Nas escolas as crianças da quarta série se isolam nos cantos para ‘trocar informações’ via celulares “iTouch”. Aprendem desde cedo a arte penosa de ser solitário mesmo rodeado de gente. Gente que nunca vai poder conhecer, por que, sabe como é, é perigoso.
Outro dia um amigo me disse: Escreva sobre algo valioso. Pois quer coisa mais valiosa que a nossa própria pessoa, que construímos dia a dia, com cada palavra, cada gesto? É pena que as pessoas costumem ignorar este fato. Focando-se somente nas construções materiais, acabam ficando com a personalidade rudimentar, fraca.
Imagina se a mania de ser despretensiosamente sincero, de cantarolar pela rua, de não ter medo de olhar e ser olhado pega! Ah, aposto que o homem ia arrumar problema nisso também!

09/04/2010

As Mulheres de Pedra

Do abismo dos lábios rachados em pedra – pedra grossa e gasta pelo vento – vertiginosamente palavras de amor e ódio, entrelaçadas em linha torta, pendem e se derramam, formando ruínas de uma cidade inteira.
As palavras são pequenos pedregulhos que rolam pelo desfiladeiro de seios polidos, feitos de quartzo rosa e afeto - afeto que só uma mulher sabe possuir. Continuam rolando pelas coxas feitas de opala e escorrem pelas canelas de marfim e prata.
Elas descem, as palavras, manchadas de batom vermelho-sangue-pisado, aos pulos atingem minha alma nua, rachando-a em pedaços, como uma fruta madura que recebe tiros infantis e impensados de estilingue, em alguma tarde quente de domingo.
Igualmente numa tarde quente, eu andava pelas ruínas da cidade das mulheres de pedra, perdido e enlaçado pelos ares doces do lugar – ares doces como hálito de mulher.
Avistei algumas mulheres de pedra que ali repousavam; umas tranqüilas, de delicadeza rústica e imutável e outras com olhar leviano, quase desdenhoso e muito sedutor. Feições que ficaram eternamente esculpidas nas faces pedregosas.
O sol a pino fazia a essência feminina do local dissolver-se e evaporar em um suave incenso que dançava no ar, me deixando ébrio e um pouco tonto.
Teria chegado eu nessas ruínas de pedra e palavras com os meus próprios pés? Ou tais ruínas ergueram-se sorrateiramente à minha volta sem que eu percebesse?
Ah! Como são misteriosas as mulheres e os seus feitos!