27/01/2014

Os Couros

Fez um sol tão forte que os couros do fazedor de tambor estouraram de tão esticados. O samba dos pandeiros ficou mais rápido e os atabaques só podiam tocar Barra-Vento. Zé Amarildo foi obrigado a colocar graxa nos ganchos de sua rede. Ninguém foi pra roça por dois meses - e quem foi, por lá ficou, feito árvore de Cerrado dos desenhos que aparecem nos livros de Guimarães Rosa.

16/01/2014

Anais da Vida


Perdi tempo demais tentando escrever coisas profundas e o café - tão clichê para um escritor - esfriou.
Quis falar sobre as pombas sujas nos fios de luz. Elas cagam em nossas cabeças tão cheirosas de shampoo. E isso me pareceu terrivelmente triste. Então quis falar da vida, mas estava tentando parecer inteligente
e não consegui.

18/12/2013

nós todos

I
Vamos falar de um clichê - de um pôr-do-sol, de uma flor bonitinha em um jardim.
Vamos recriar todas as nossas recordações infantis, afinal, Freud explica. Então beleza. Presta atenção: já ouvi dizer que explicações demais tiram o tesão da vida, das coisas e pessoas. Agradeça a ele, ao Freud. Seremos felizes com nossas próprias aflições, enlaçados num abraço fraternal.
Obrigado, herr.

----------------------------------------------------------------------

II
Todos estão na rua e caminham com movimentos bussolares. Eles tem o norte fincado na cabeça: vermelho e reluzente norte magnético.

Vejo os traços pontilhados que suas rotas deixam no chão enquanto caminham bem rápido.

E eu, tantas vezes andando na rua errada, procurando os números das casas, parando repentinamente e voltando no meio do caminho - embaraçado por voltar subitamente por onde vim
(nas primeiras vezes).

02/12/2013

Os Bens

Eu comprei lentes de vidro pra poder enxergar um mundo caduco. Lentes grossas.

Eu comprei um sensor digital que grava imagens de forma "profissional" (seja lá o que signifique) - uma retina-muleta para uma das minhas retinas reais.

Eu comprei umas tantas mutretas para me orientar nos caminhos do mundo. Comprei de sorrisos amarelos (e caros) à complexos vitamínicos inúteis.

Eu consumi pessoas inteiras.
Eu já cuspi nos chãos branquinhos da vida dos outros

e eles escorregam.

02/05/2013

O Quase e o Nem Isso

Eu sou o quase-escritor de pessoas-mais-ou-menos, que vivem em cantinhos de Mundo, trabalham em pedacinhos de empregos e fazem semi-coisas felizes.
Eu quero cantar o dia que não veio e o futuro que não foi, mas podia. Quero versar sobre os abandonados de passado, os carentes de agora; esses tipos assim meio vice-e-versa, meio tic-tac que não pára.
Eu, eu, eu. Sempre eu. Todo parágrafo desse quase-texto até aqui suportou meus “eu’s”. Me perdoa. Perdoa o Eu. A gente não quis passar má impressão. Retifico: Vou escrever tudo aquilo que não fui, que não vim, que não fiz. Serei o eu-não, pelo menos aqui nessas letrinhas
ou talvez nem isso, com sorte.

08/04/2013

Canto de Calçada


Existe um cantinho de calçada onde um cantinho-de-homem fica sentado todos os dias, sempre às três da tarde.
Pensei, a princípio, que era um morador de rua ou mendigo, mas ele nunca me pediu nada - tão orgulhoso eu, tão bicho-homem de assim pensar! Por que ele haveria de me pedir algo? Pedi até desculpas mentais da última vez que o vi.
Ele sempre "Opa", "Bom dia" e eu também "Opa.", "Bem o senhor?" e assim foi até que as máquinas chegaram e arrasaram com a calçada e derrubaram o quarteirão inteiro pra construir algo muito sólido que eu não sei o que é - e nem quero.
Passei do outro lado da rua ontem e olhei: sem cantinho de calçada, sem cantinho de homem nenhum que fala "Opa". Só as máquinas trrrrrrrr.
Meu grande desconhecido, meu confortável senhor foi-se com sua calçada virar escombro do mundo.

06/03/2013

Estação


Fiquei querendo escrever um texto à todos vocês que passaram tão rápido na minha vida e já se foram pra tão longe.
A gente se movimenta, a gente vai e vem e então se machuca. Não vê no jornal todos os dias as pessoas que morrem nos carros só por ir e vir de algum lugar? É isso que acontece em nossas vidas.
Certos movimentos bruscos machucam, e acredite: não sou o único vilão dessas histórias. Eu também saio machucado e em frangalhos sempre que vocês vão embora do meu peito.
Todos vocês que passaram tão rápido, deixo aqui minha eterna gratidão. Eu sou todo feito de vocês, por mais vis, por mais enganadores, por mais tristes ou decepcionados que sejam ou estejam. Por mais que os enganei, falei bobagens, os traí, os maltratei, os julguei, os esqueci, os deixei.
Sou feito de matéria-pessoa, quase um Frankstein de vidro e cola. Vocês estão aqui e eu já sou todo marcado. Sinto que o sol bate e brilha esses vidrinhos coloridos do meu peito

e dói.

27/02/2013

Noite-Vagos


Dormi de janela aberta e a noite entrou no meu peito. Agora ela não sai mais e tudo é coisa de noite aqui dentro de mim: Brisas fresquinhas, casais apaixonados namorando na praça, velhinhos de chapéu tocando samba nos bares. Será que é assim que nos tornamos noite-vagos?
Ou seria, melhor dizendo, noite-cheios?

18/12/2012

Bitucas Beijadas


Ela, moça nova, tinha uma cara de quem já se foi – e não era "foi" de ter ido, mas de ter sido. Já não era mais nada e procurava um lar em cada olhar estranho com seus exageros sociais.

Ausentada e faltosa dela mesma, acende muitos cigarros e as bitucas já fazem um grande público ao seu redor na calçada cinza. As bitucas todas beijadas por ela e todas aos seus pés, como garotos bonitos de branco calados e surrados.

Precisou de várias paixões assim, auto-destrutivas, até que o ônibus chegasse – e chegou. Ela subiu como quem vai à forca.

Será por isso que fumam tanto? Essa gente ansiosa queima tudo rápido
demais.

03/12/2012

Poema-Varal


As suas calcinhas secando junto com as minhas cuecas
num varal com pregadores coloridos
que eu orgulhosamente preguei na parede;
nossa parede.

Morar com você ia ser uma tarde fresca sempre:
eu te ensino a cuidar das plantinhas
e você vem com seus “sintagmas verbais”.
e sua linguística.

Então a gente vai assim dividindo mundinhos
e brigando pelo controle do som
e eu vou rir quando você fizer graça assim
toda torta dançando.

Todas essas cenas que me vêm na cabeça
são fotografias de um amanhã
São convites invisíveis que eu te faço
enquanto tomo banho
cantando

20/11/2012

Dos Poemas Andarilhos


Meus poemas não são tão bons
para ficar agulhando as pessoas
ou nenhum outro tipo de costura

Não escreverei um “poema-remendo”
nem um “texto-de-retalhos” (para usar no inverno)
nem tecerei retaliações passadas

Meus poemas são como meninos de rua
sem rima, pai ou mãe
jogados por aí eles batem nas portas;
batem nas vidas procurando qualquer coisa:
um lar
ou um prato de sopa.

25/10/2012

Caiçara



Tenho uma bicicleta caiçara pra andar de sorriso manso por aí, como quem anda beira-mar, molemente. Não que eu more na areia; quem dera! Eu moro no asfalto, mas sempre estou à beira. Beira-o-quê? Beira-eu-mesmo, beira-mim.

Dizem por aí que devemos ir pelas bordas, não é? Não consigo levar nada a sério em cima de uma bicicleta. Nem eu mesmo. Viro margem de eu mesmo, marginal, e me vejo
passar.

14/08/2012

Ventania e o Abacaxi


                Cambaleante na vida esse moço vai se tremendo todo. Corda bamba é arame farpado entre um trago e outro. Eu o vi carregando um abacaxi, sem sacola nem nada, como quem leva um troféu. Ninguém pode ver o bêbado fazendo essas coisas solenes, tomando sorvete, indo à feira de domingo ou sei lá que porra feliz.
                Todo bairro tem o seu "bêbado mestre" e insuportável para o povo é a pontinha do bem e do ingênuo em algo que já está roído. Roído ou ruído? No final tanto faz e fez, pois ele atravessou a avenida e houve um estrondo; acorde final: O abacaxi despedaçado no meio fio, sirenes e o rosto esfriou
quase sorrindo.

26/07/2012

Das Pedras


Imagine o problema que Reis tem com os grãos de areia: Tudo aquilo ali, não contido, molemente concreto; desesperariam-se? Reis gostam de pedras e outras concretudes.
            Jamais fui rei, confesso. Sempre à beira d’água, eu, os pés na areia e o mar. Andei e vi reinos de pedra, pessoas de pedra. Cantei que “todo caminho deu no mar”, mas ah!, reis devem odiar mais ainda
o mar.

09/04/2012

Marinteiro

Pinga sim
os olhos em mim
mas só se for pra brotar
nossas sementes guardadas no peito

Chora salgado
Chora gelado, menina
que lamberei a lágrima;
que te faço um mar inteiro

Mar inteiro, marinheira!
Levanta a vela que eu sopro o vento
Já é hora: vem, vamos

Enrosca tua ancora na minha
não fica aí sozinha
que gelado demais é esse mar
de gente

14/09/2011

Mulata Molambo


Ê mulata, olhar molambo, jambo a boca.
Cuidado, moço bem criado: Três passos são pra frente e sete passos são pra trás! Aliás, passa rasteira e ralha com que homem for, faceira que é; ela é mulher, ela é mulher!
É punhal de aço, açude de mel, taça de vidro, vida ao léu.
Cuidado, moço! Os tambores estão avisando:
“Arreda homem que aí vem mulher!”

26/07/2011

Zé Navalha

Zé Navalha barbeia cantando na beira do cais. Zé faz barba, cabelo, bigode e pescoço de cabra que bate em mulher ou que rouba no carteado.
Vivendo assim que Zé vai tirando seus trocos e ganha presentes das donas: bolo fresquinho de fubá mimoso, moqueca bem temperada – tudo por reconhecimento.
Há uma gritaria dos moleques:
-Os home tão atrás do Zé!
De roupa branca cruza os corredores e cortiços. Roupa branca e vermelha, Zé! Tem sangue de um negro traidor nessa roupa, Zé! É sangue de seu irmão.
Ah, Zé! claro que as lavadeiras do cais te esconderiam! Suas roupas já estão brancas e limpas de novo; Mas como lavar o sangue de um irmão na própria alma? Ah, Zé... Que inocência! Isso nem as lavadeiras poderiam saber.

01/06/2011

Das Quedas

Quantas vezes se cai do cavalo
e o impaciente animal vai embora
e restam apenas os pés
para seguir viagem

O sapato uma hora fura
e o casco do pé engrossa muito
e já não se sente mais
a frieza do chão

Tantos impérios nascem e caem
no piscar de uns séculos
Nós também somos de areia;
Areia movediça