26/06/2009

Aos Meus Bons Tolos

Ah virtuosos do coração! Vocês que são tão belos e encantadores em tuas palavras, teus cantos, tuas artes; vocês que sentem o mundo de forma singular e exagerada; Belas pessoas vocês que vêem além dos olhos cegos da matemática!
Ah, virtuosos do coração! Artistas desconhecidos da simplicidade dos dias e profundos sábios daquilo que se passa dentro do peito e escorrega pelas palavras entrelinhadas! Tranças de sentimentos considerados tolos que se enlaçam, crescem e, inclassificáveis, desaparecem, sem que ninguém os notem... Mas vocês... Ah, vocês! Como são bons em seus métodos!
Saibam vocês, aqui aludidos, que serão abençoados com os infortúnios sociais do destino! – Amém. E digo-lhes mais, melancólicos, vocês que sabem amar, vocês que sabem das peripécias maravilhosas do mundo e dos sentimentos, vocês que tecem belas conversas, vocês que pintam, atuam, tocam... Ah, estão todos perdidos! Perdidos!
E por que perdidos? Ah! É a dualidade do mundo, presente em tudo. Profundos como vocês terão que andar nos extremos das situações humanas! Ah! Sim! Terão que cuspir sinceridade àqueles que lhes chateiam. Sensivelmente atingindo a insensibilidade terão que saber como magoar, ferir e desprezar... Sim! São os ossos do ofício! Não basta o carinho e a compreensão. Não basta. Terá que ser cruel.
O virtuoso do coração que não sabe como operar com sentimentos sombrios e opostos vai padecer, e deixa esvair toda sua essência e inspiração através da casca da falsidade que criou para não desagradar aqueles que lhe perturbavam de algum modo, por mais ínfimo que seja. E digo que os virtuosos são ótimos nisso, sabem muito bem ser ardilosos com máscaras, mesmo que acabem sufocados por elas, algum dia.
Ó, infelizes irmãos das virtudes humanas! Ó, desventurados companheiros da sensibilidade singular! Lembrem do que escrevo para vocês, por mais asqueroso que seja, um dia usará das virtudes contrárias.
Ó tolos sentimentais e incansáveis pensantes! Ó exagerados da vida e cúmplices do subliminar! Ó, meus iguais!

20/06/2009

Pele de Tela

pingadas ao acaso
minhas formas em teu corpo
como manchas de tinta
na sua pele de tela

despreocupados
os contornos são traçados
fogem à forma e giram
preguiçosos

respinga chuva
o suor fremente que escorre
salpica salgadas gotas
em nossa pintura

atingidos por pincéis
os cabelos se mesclam
como num combate
inofensivo

pés quentes
e as mãos formam
pássaros a voar num céu
multicolorido

pincelamo-nos
misturando nossas cores
qual belo espetáculo
aleatório

suas preciosas tintas
de cheiro mole e fresco
me sujam as roupas
e a mente

14/06/2009

Videira

O melhor mesmo foi o vinho
ela tinha uma videira inteira,
Mostrava – risada
tuas fulguras
colhia-lhe as uvas, no ventre
Afastava as pernas – e a calça.
Ebriáticos.
Então, provava de teu vinho
âmago...

Bradava, qual menina faceira,
o teu desinteresse pelo mundo.
Me chamou imaculado;
louca – eu ria.
Eu lhe mordia as formas
e os contornos desapareciam;
era noite

11/06/2009

Um Triunfo no Farol

Apoiou-se num poste, esperando o farol abrir. Os carros passavam rápido demais. Estaria bêbado já aquela hora? Difícil saber. O sol, pálido e fosco, nascia como bebê prematuro, numa quarta-feira.
Rápido demais, os carros continuavam passando. Talvez rápido demais para seus olhos e para a vida. Não podia entender. Ficava ali, como decoração, preso ao poste pelos pregos do desânimo. Escultura de pedra. Pedra fria e triste.
Resmungou qualquer coisa, caçando um cigarro no bolso da camisa e o farol fechou. Verde, amarelo, vermelho. Atravessou, lento, pesado. O tipico passo de quem não cultua ambições; o passo do tédio; do conformado.
Por um momento, olhou para aquelas maquinas paradas com um olhar soberano, superior. Agora eram seus iguais, ou até mesmo inferiores: Estavam todos parados, esperando, os motores com o barulho constante. Atravessou como se fosse um triunfo, soberano de uma batalha justa.
O farol abriu e os carros voltaram a passar. Praguejou algo, gesticulando com as mãos e o cigarro dançando na boca. Malditos carros, de certo pensava. E já do outro lado da rua, o olhar voltou a ficar perdido entre os vultos barulhentos. Mas não lhe davam atenção ou prestígio nobre; só passavam, rápido demais.

10/06/2009

Sobre a Panturrilha Inflamada e os Copos d'Água


Eu que pensava que tudo era oceano, ao me deparar com os incalculáveis passos no asfalto, vi que não passavam de copos d’água salgados. Andei milhares de metros e metrôs, por várias horas, sozinho. Chorando, como criança perdida no tumulto das seis horas da tarde; os olhos ausentes.
Os motivos que levam tais coisas acontecerem - chorar e andar sem rumo – são óbvios demais, enfadonhos para mentes calejadas, talvez. “Ah, os jovens! Ah, os exageros! Ah, as paixões!” diriam, empregando a mesma ortodoxia irritante de pensamentos lógicos e infelizes.
Andando encontrei três figuras que tocavam violão. Estava chovendo, que importa? Me sentei no chão com eles. "Onde há música não pode haver maldade.", como diria Cervantes.
A música deles era bela ou então meu estado de espírito que, lírico demais, fazia do menor bater de folhas algo divino e infinito, como os poetas fazem. Então, decidi seguir meu rumo sem rumo. Fui andando, errante, até que meus pés me levaram pra casa.
Sinto que esse dia trouxe algo de inexplicável e misterioso para o resto dos meus outros dias. E não foi só a panturrilha inflamada, vítima das andanças. Não foi: Foi como se esse estado solene, triste, ficasse como tatuagem, sempre ali marcado, pra lembrar de algo, algum dia.

10/05/2009

Escovas de Dente e Nostalgia

A gaveta de camisetas era separada da seguinte forma: Mangas cortadas e mangas não-cortadas. Algumas calças gastas. Quando faz frio, pula numa jaqueta e saí, pra sentir o vento frio no couro. O bom das jaquetas é que você pode usa-las com camisas de manga cortada. Uma camisa branca, para as bobeirites.
Ainda lá, na parte de cima, vários comprovantes e atestados, recibos; que seja. Sempre há espaço para recordações nostálgicas no armário de uma pessoa que realmente vive e aprecia isso. A vida é isso: viver. E estes papeizinhos não atestam nada, comparados à tais objetos desencadeantes de memórias; verdadeiros gatilhos, ratoeiras de emoção, que ficam ali, só esperando por um olhar.
Ali, no pote com canetas, ainda permanecia uma escova de dentes, quase nova, que escovou dentes em tardes vazias. Escovou ao lado de outra escova, de outra pessoa, também sorridente, que lhe sujava a ponta do nariz com as mãos sujas de pasta, e depois um olhar e um beijo na testa, e torna ao nariz, com a mão cheia d’água, mas agora para molha-la.
Nós crescemos, e sempre deixamos algum desses objetos-prova no fundo das gavetas, em caixas em cima do armário, entre as páginas de livros, e qualquer outro lugar que possa surpreender-nos de forma quase cruel, pois nos coloca diante do próprio passado, mas tão sutil que faz congelar o olhar e o tempo, nos arrancando um leve sorriso.

06/04/2009

Sobre o Vazio e Lembranças

Esse sentimento de vazio no peito, ou em qualquer outra parte. Está frio, e frio é gostoso, mas frio dá saudades. Aliás, tanta coisa dá saudades.
Saudades é tão estranho; é a vontade de viver uma lembrança, mas lembranças foram feitas (foram feitas?) para que sejam vividas em memória, voltando e pausando cada movimento, cada bater de cílios, cada passo, como em algum filme ou sonho esquisito. Cada mínimo detalhe parece tão infinito numa lembrança, que podemos nos distrair durante minutos, longe do mundo, pensando e sentindo sem palavras.
Pensar e sentir sem palavras... Acho que isso que é uma lembrança.
Tudo parece tão estranho, o mundo parece tão mudado. Cada buraquinho na parede me parece algo tão profundo. Fico o caminho todo reparando nos beirais dos telhados, na superfície enferrujada dos portões e em outras coisas que pareceram nunca existir.
Engraçado tudo isso. Às vezes sorrio quando me vejo percebendo essas coisinhas no meu dia. De certa forma, sentir tudo isso é confortante. Eu diria que é como tocar uma música triste no violão. Não sei explicar essa metáfora.
Acho que no fundo não sei explicar coisa alguma. O amor? Apesar de sentir, lembrar e chorar, não sei nada sobre o amor.

02/04/2009

Deixe-me Lembrar Ao Menos De Seus Pezinhos Palpitantes

Esses pequenos pezinhos
[Vão
Dançar e passear
Sozinhos]
Num rumo sem rumo

Continuam pelo chão
[Vejo-os
em água e sal
Diluídos na visão]
Implorando beijinhos


Pés trinta e quatro
[e meio
que sinto saudades
do que eu não vivi]
que vão, sem passar.

27/02/2009

Goteiras

Duas goteiras cheias de sentimento molhavam o piso branco. Estava chovendo, mas não era o telhado, nem o forro. Um frevo ou um tango tocava; que importa? Não lhe fazia diferença. Algumas doses e sentiu-se confortavelmente livre para gargalhar.
Logo as goteiras tristes viraram duas luas nebulosas, quais parecem cair do céu a todo instante. O olhar mirrado encarando o espelho não olhava nada. Estava vazio. As sobrancelhas vez ou outra se contorciam, para sentirem-se vivas e longe do tédio, fingindo expressões inexistentes naquele desafortunado rosto melancólico.
A cada passo sentia diluindo-se no chão. Bêbado e triste, poupou a cama de seu mau-cheiro, e acomodou-se num canto do quarto. Caiu num sono pesado e sonhou confusão e tristeza.
Os primeiros raios de sol penetraram o quarto, então se sentiu vivo de novo. Precisava de um novo começo. Não foi trabalhar; precisava de coisas reais. Ficaria bem. Tinha certeza.

25/02/2009

Acordar

A barba mal-feita coçando o fez acordar. Não olhou no relógio nem no espelho. Tudo estava intacto, como sempre esteve.

-O mundo é tão absurdo quanto um sonho. – Balbuciou sonolento – Trabalhamos, nos relacionamos, ficamos gripados... Comemos macarrão no domingo. Isso tudo é um grande absurdo. - E riu, ainda coçando a barba.

A barba mal-feita coçando o fez acordar. Não olhou no relógio nem no espelho. Tudo estava intacto, como sempre esteve.

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29/01/2009

Sobre o Peixe Amarelo Desaparecido

Aconteceu outra vez. Oito e quarenta e três. Céu claro, poucas nuvens, sol alaranjado. Os cachorros latiam no quintal e o papagaio reclamava do barulho. Estavam agitados. Poderia ser um dia como qualquer outro, mas não foi.
Leonardo, detentor do aquário doméstico, localizado ao sudoeste da cozinha (debaixo da pequena prateleira com flores, sob a fruteira e anteposto à porta, de frente à mesa de jantar e ao oeste do toalete), surpreendeu-se ao dar falta de um dos cinco peixes residentes do aquário. Ainda sonolento, esfregou os olhos e tentou localizar o fugaz peixinho, pensando estar tendo alucinações. Assustou-se. Ele (o peixe) realmente não estava localizado no recinto aquariano, localizado à direita da geladeira familiar.
Foi então que me procuraram. Meio-Dia e Vinte e Sete. Eu estava inerte àquela hora da manhã. Engoli o café com os relatos desesperados do Sr. Leonardo, e da Sra. Tereza, co-detentora e sócia do aquário doméstico, localizado na zona de nutrição, cinco passos para o sudoeste partindo em vinte e três graus diretamente da entrada do corredor que vem e vai para a sala de estar. Estavam assustados. Leigos.

-Deixem-me sozinho... eu resolvo as coisas por aqui – Pedi, olhando para o horizonte com olhar sonhador, e o lábio inferior pouco rígido, a sobrancelha esquerda em sua extremidade direita ondulava, enquanto uma intensa atividade cerebral se desenvolvia.

Examinei o local do ocorrido com extrema perícia.

-Suicídio. – Decretei friamente. E andando de um lado para o outro, fazendo movimentos vagos com as mãos, continuei:

-O infortunado peixe suicidou-se batendo a cabeça no vidro do aquário, mas antes pediu para seus companheiros de estadia, os peixes dourados, para que queimassem seu corpo. Ele queria jogar com vocês. Esses peixes querem deixar vocês malucos, e estão conseguindo. – Deram um soluço de susto. Leigos.

Então transferimos os peixes-cúmplices para uma jarra de plástico de segurança máxima. Tentamos interrogá-los, mas se mostraram nervosos e contrariados. Tortura? Não. Não podíamos arriscar nossas testemunhas/suspeitos.
Treze horas e cinqüenta e três. O sol quente ajuda no clima de tensão. Investigamos o aquário, o corpo do peixe não estava enterrado nas pedrinhas coloridas. E os peixes não queimaram o corpo do suicida. Não.
Acabamos por achar o corpo do jovem peixe infortunado. Estava preso dentro de um pequeno pedaço de coral, numa de suas cavidades redondas.
Sra. Tereza não agüentou a visão horrenda e quase fantasmagórica do peixe defunto. Com seu lenço rendado saiu do recinto, num discreto pranto, e foi tomar um ar. Quase que lança seu café da manhã pelo chão rústico do quintal.
O peixinho macilento jazia com os olhinhos petrificados e sonhadores. Seu corpo estava inchado pela água e esbranquiçado pelo tempo. Pensei na família do peixinho, agora de um amarelo gasto. Eu estava quase emocionado, mas me recompus.
Sr. Leonardo, detentor do aquário, decidiu tirar todas as pedrinhas coloridas do aquário. Estava com medo de algum atentado. Nunca se sabe. Tirou também todas as frivolidades, como os enfeites e plantas artificiais. Os peixes ficaram quietos quando transportados de volta ao agora vazio doce lar. Acabou. Por enquanto.

23/01/2009

Sobre o Roubo



Certas tardes você se sente vazio e incompleto. Acredito que as tardes sejam especiais e até mesmo mágicas, elas parecem um período de transição para algo especial, que é a noite. Ela funciona como um preâmbulo para os acontecimentos noturnos. Talvez por isso as tardes sejam nostálgicas.
Eu pensava nisso enquanto subia a rua, numa tarde de sexta-feira. Eu estava angustiado; Tinha que levá-la à rodoviária, e não há nada pior que alguém querido partir numa tarde, pois você sempre vai ter o resto da tarde e toda a noite para ficar sozinho. Não reclamo de tardes com pessoas queridas, só digo que a noite combina mais com tais pessoas. Não sei explicar o por quê, a noite tem um cheiro, que é um tempero para uma boa companhia.
Foi então que vimos quatro livros em cima de uma mureta redonda, que fica numa esquina bem movimentada, ainda mais de sexta-feira com os bares fervilhando. Os livros estavam alinhados, como se arrumados por alguém. -Deve ser de alguém, concluímos, e seguimos nosso caminho. Eu estava intrigado, não se vê livros por aí jogados (de um modo organizado) todos os dias. Ainda mais numa tarde. Uma tarde de sexta.
Eu não quis isso! Juro que não! Mas fiquei completamente fora de mim quando, voltando pelo mesmo caminho, percebi que os livros ainda estavam lá! Não pude resistir, e andei devagar, perto da mureta para observar esses objetos fascinantes que são os livros. Os três últimos livros eram vermelhos, eram sobre idiomas, mas ironicamente, o mais próximo de mim foi o que me chamou a atenção. Preto, capa dura e desenho em dourado. Não era uma bíblia, pois um gato maligno estava desenhado aos pés de uma senhora com um longo vestido, que se espalhava por sobre toda a extensão da capa. Pude ler “Poe - Histórias Extraordinárias”.
UM PRESENTE DE DEUS! Isso! Um presente divino um livro numa tarde sexta-feira! Presenciei um milagre! Participei de um milagre. Bem sabe você que não se nega um presente. Ainda mais divino.
Eu desci a rua como se o livro sempre fora meu. Por algum motivo eu me sentia bem sem nenhum traço de remorso. Como eu poderia deixar aquele livro ali, sozinho? Digam-me! Como alguém, n’uma tarde de sexta-feira pode deixar livros ao relento?!
Folheei as páginas para ver se algo estava escrito, quem sabe uma mensagem de parabéns, uma dedicatória de algum amor, enfim, qualquer coisa. Mas nada estava escrito. Me senti poderoso, como qualquer homem que se apropria de algo que não lhe pertencia. Acontece que muitas vezes esse sentimento de poder é falso e nebuloso.
Fiz as formalidades e coloquei o livro na estante com meus outros, para que pudesse sentir-se melhor. Sabe-se lá, deve ser um tédio passar uma tarde de sexta-feira do lado de três livros de idiomas.
Três batidas apressadas bateram na porta. Tive um mau presságio e por um momento único senti um intenso remorso que durou segundos infinitos. Chacoalhei a cabeça e voltei a mim. Peguei o copo de café em cima da mesa, como se o recrutasse para meu companheiro. Como se ele pudesse me proteger. Eu estava com um medo irracional.
Girei a chave, e antes que pudesse ver quem batia na porta, fui surpreendido, e levei três tiros no peito. O rapaz de luvas foi embora, e olhando ao meu redor, vi uma poça de sangue, meu sangue, fazer uma forma disforme no tapete da sala.
O que mais me deixa confuso é que o livro continuou lá, na minha estante, com os outros livros. Não resisti e acabei por morrer naquela sexta-feira. O céu já estava escuro. Parece que a tal “transição para algo especial” realmente ocorreu para mim. Penso hoje em dia que tardes são perigosas, mão não me arrependo do meu singelo roubo.

13/01/2009

Pisciana

Ela é todo um mar, calmo de dia, preguiçoso ao entardecer e revolto de noite. Injusto chamar-la apenas "Pessoa de peixes", sendo que suas águas perfumadas abrigam os mais variados tipos de cardumes multicoloridos e diversos tamanhos; sendo que suas águas escuras e profundas abrigam as criaturas luminicentes e misteriosas, dos mais estranhos e fascinantes hábitos.
Na sua superfície vejo uma praia sedutora. Teus seios são corais multicoloridos que se avivam a cada onda que os atinge. Ondas que partem do seu íntimo, trêmulas mas certeiras. Teus peixes pulam em quedas d'água repentinas, nadando contra a correnteza. Esses cabelos com fios de vários tons são marolas inebriantes, com picos fulgentes pelo sol do meio-dia. Afogo-me nesses cabelos como marujo entediado! Nas suas costas nuas quero jogar o meu corpo; Tuas costas são cristas de onda que me arrebatam para e frente e para trás num ritmo sereno e hipnotizante. Que essas ondas jamais me atire em terra firme. Quero nadar pelas ondas de seus corpo, como atleta.
Quero navegar como capitão em todos os seus muitos mares neste meu frágil barco construído com todo o meu exagero e paixão. As velas são minhas loucuras e sem âncora velejo até deparar-me com uma de suas possíveis pedras pontiagudas, que me servem de freio! Mas em cima de cada pedra existe uma sereia, que canta rodiada de seres simpáticos como caranguejos, ostras e bolachas do mar.
Teus peixes e cardumes são teus sentimentos, o mar e a correnteza o seu desejo e sentimento. Tuas pedras são tuas confusões que me afastam e tuas sereias e seres simpáticos são as certezas finais e inegáveis que me puxam para perto de ti.

08/01/2009

Saudade

saudade
sau.da.de
sf (lat solitate) 1 Recordação nostálgica que faz pesar o peito e os ponteiros relógio, fazendo dos dias muito compridos. 2 Vontade desenfreada de tornar a vê-la(o), beijar, abraçar, morder e falar todas as loucuras e besteiras que vêm na cabeça. 3 Sentimento sorrateiro que lhe ataca quando ouve alguma música ou olha para algo que a(o) lembre. 4 Verificação excessiva e exagerada de instrumentos como o relógio, calendário, caixa de e-mails, celular e fotos. 5 Sentir uma verdadeira falta, um buraco nos seus dias. 6 Vontade de nunca mais deixa-la(o) partir para muito longe por muito tempo. 7 Necessidade de poder fazer cócegas e carinhos numa tarde vazia.

30/12/2008

Páginas Rasgadas (Título gasto...)

Em meio à lágrimas e a risos de euforia,
rasguei essas páginas de vida!
Eu rasgo as páginas e logo as colo
pedaços unidos com cicatrizes

Rasgo também o peito cheio
de coisas docemente exageradas
Dono de palavras esfareladas
Procuro me esconder.

28/12/2008

Pêlos Céus!

Muitas vezes eu me assusto quando olho para mim e vejo algo diferente. Sério. E isso acontece muito quando eu acabo de tomar banho. E aconteceu de novo.
Eu estava lá me enxugando com a minha toalha quentinha que acabara de sair do sol e então eu me deparo com um pêlo infeliz que estava muito afastado do centro do meu peito. E quando eu ví esse infeliz por lá, logo pensei:
"Ferrou-se! Ele migrou pra lá só para levar outros comparsas com ele e povoar essa outra parte do meu jovem peito com outros pelos. Céus!"
Mas depois, quando me acalmei, eu percebi que um problema muito maior estava por trás disso tudo:
"Puta que pariu! Eu estou crescendo! Tô ficando velho! Que bosta!"
E então vem aquele sentimento melancólico no peito (literalmente) e você fica pensando que vai morrer e pior: Que seu desempenho sexual vai "acalmar" quando você ficar velho. E então vem aquele desespero dos meus hormônios adolescentes, promovendo rebeliões de pensamentos em mim. Veja só o que um mísero pêlo faz com a gente.
Acho que eu ficaria deprê mesmo se um desse migrasse para as minhas costas. Acho que eu ate precisaria de terapia. Um amigo meu que faz medicina falou que é possível que eu fique careca! Olha só que droga! Ele falou algo sobre a testosterona e etc.
E então é isso. Eu fico feliz que hoje exista depilação e "terapias" que fazem até os vovos parecerem garotões.

17/12/2008

Verdadeira Intimidade

Ao menor sinal da verdadeira intimidade, seja ela de amigo ou amante, suas ilusões irão cair, uma a uma, derrubadas por este "invasor permitido". Uma vez intimo, abre-te portas pesadas, enferrujadas e esquecidas. Ao menor sinal da verdadeira intimidade, seja ela de cão ou criança, já não és mais responsável por somente por você, mas também pelos teus intimos, pessoas de sua adoração. E vice-e-versa, se é que versa-se tais coisas.
Ao menor sinal de tal intimidade, te sentiras confuso, aflito, preocupado, ansioso, e tudo mais, com problemas que nem são seus. Problemas que você nunca imaginou ter, não tem, mas que, mesmo assim, te afetam, te sobrecarregam e te deixam tão mal quanto se atingissem sua própria carne. Te cansam como se fossem alojados em suas costas. E não há só essa batalha! O problema da intimidade vai além...
Mas veja lá, em tudo na vida, existe tal dualidade! E a intimidade não é diferente, infeliz amigo. O infortúnio foram todas, ou quase todas palavras falarem da parte trabalhosa do árduo ofício do íntimo. E que seria do homem sem o trabalho? Essas dualidades da vida não são obscuras nem luminosas. São apenas... diferentes. Adiante.
Vai frustrar-te com o outro, vai querer ter o comando, quando nada pode fazer. Vai querer conduzir, confortar e batalhar, junto. Mas não pode. A intimidade nos dá a idéia de possuirmos tais poderes. Poderes divinos e vagos.
Ao menor sinal de intimidade, verdadeira intimidade, devemos amar. Amar com intimidade verdadeira, poder também divino, mas acessível a nós, se assim desejarmos. É preciso ser prudente, paciente e corajoso. Seus desejos mais profundos irão se satisfazer quando a pessoa intima em questão, a pessoa que te preocupa e que te cativa ter pernas fortes e uma mente corajosa. Aí sim terá feito sua parte. De resto, não te culpas, e abraça-o.

09/12/2008

Canela



Lá menor em leves golpes. Vem devagar e acrescendo num tom cortante. O lá menor parece triste e misterioso. Logo alterna com sua forma sustenida, n’um vai e vem inebriante, fazendo esquecer sua forma triste e incita ao mistério e voluptuosidade.
Lá menor e mi, num ritmo quebrado. O mi, que é grave e sensual, parece acalentar o lá menor, embalando ainda mais o ritmo, como um nobre cavalheiro. O casal de notas ameniza o caos no braço do violão vermelho.
A madeira rubra, antiga e gasta, treme retumbando cada nota que os dedos abocanham nas seis cordas. Deslizam nas suas dezenove casas, também gastas pelo tempo. Se tal seqüência de notas tivesse um cheiro, este seria agridoce, como os condimentos do oriente médio.
O ritmo acelera. Palmas e sapateados cruzam-se, misturando-se com o cheiro das flores de canela e essências excêntricas, que são queimadas em lâmpadas de azeite. Os vestidos vermelhos de várias camadas rodopiam, e vez ou outra são carregados de um lado para o outro pelas mãos de quem os veste. Mãos com unhas afogueadas.
Os pés continuam batendo no assoalho de madeira com firmeza, ecoando ao longo da grande sala, marcando cada contratempo com precisão. Pés e mãos em harmonia giram e contornam formas sutis no ar, enquanto o ritmo quebra e volta à tona, rasgando os ares andaluzos. Subitamente a música pára, e os vestidos derramam-se pelo chão lentamente, conforme os corpos vão se deitando em cima das próprias pernas, em movimentos ternos.

28/11/2008

Chão de Madeira


O colorido e o preto e branco, lentamente, misturavam-se. Beijou-a. Colorido, trazia uma nova perspectiva; uma nova esperança. Quente, recobria o seu pequeno corpo com os músculos palpitantes, papel que até agora fora desempenhado pelos agradáveis e coloridos cobertores, que agora se encontravam desarrumados.
A amargura, tão viva no recente telefonema mal-educado, agora parecia diluir-se. Saía de todos os seu poros, pouco a pouco, conforme se arrepiava. Aos poucos o colorido mancha o preto e branco, com leves pinceladas de pele contra pele. Os corpos pintam-se, devagar.
Um estrondo repentino. Barulho seco e curto. O cobertor continua na cama, ainda desarrumado, mas triunfante. O curto silêncio é engolido por risadas. Inocentes risadas. Eles estão no chão, caídos. A mistura de cores se completa.
Os tacos de madeira sentiram sua cera diluir-se com o suor, e resmungam, por minutos que pareciam inacabavéis. Há um suspiro. Então outro. Agora silêncio, e um cheiro que só eles sentiram. Ficaram ali, não importa por quanto tempo, pois parecia infinito.