aviso

ironicamente neste espaço público existe o mais sórdido, o mais íntimo e o mais verdadeiro de mim e tudo quanto foi extraído

frequentemente usei palavras que não entendo, imitei escritores e escritas: forçadamente rebuscado ou forçadamente não-rebuscado

nunca encontrei verdade, mas ainda assim fui real: escrevi com a vontade dura e inegável do caroço do abacate

14/10/2014

Antropocertos

Sempre eles e nós. Nós nunca somos eles, ai de nós! A gente se divide: são as pessoas do outro trem, da outra rua, de outro estado. São sempre eles, eles! e nunca nós. São os viados, as putas, os travecos, os caipirias, os negros, as mulheres, os favelados, os vagabundos, os bêbados, os loucos, as mal comidas, os mal amados, é falta de sexo, é nariz empinado, é feito de trouxa, é burro, é inteligente mas tem bafo, é imoral, é vil, é depressivo, é triste, é meio assim estranho - sempre os outros, sempre eles. Nós não.
Não se mistura assim, a gente pensa - não se faz isso, tem que tomar cuidado pois ser corrompido é fácil. Somos diferentes e não somos aquilo; somos outra coisa (coisa... sim, outra coisa). Acontece que uma hora nós viramos um eu-sozinho - depois de tanta particularidade e tanto diagnóstico da vida. Seguimos as prescrições certinho. Depois de tanta regra criada para uma amizade, um romance, um emprego, uma família, uma saída ao milk-shake para conversar! Que grandes muros são esses que construimos diariamente! Ora, que é a vida, ein? E mais: Que é o medo da vida.
Então pergunto e tento: Grandes reis sempre são mostrados dentro de castelos murados e protegidos em tronos maciços. Tudo tão sólido! Por que acreditamos ser reis na vida - príncipes, tantas vezes? Não temos tijolos, muros ou pontes levadiças. Olho para minhas mãos e vejo só um punhadinho de areia e as pessoas que me cercam também: Tentando conter nas mãos a areia tão seca e esvoaçante.
O que um rei poderia fazer com um punhado de areia? Imagina que desesperador para homem tão nobre: Castelinhos de areia , para usar a metáfora tão clichê dos castelos de areia destruídos - coisa que não me preocupa usar mais num texto ou numa vida (tanto faz), pois, ao perceber o quão incerto é o meu punhadinho de areia já não me preocupo com a erudição textual, gramatical e seja lá o que for. Não consigo mais ser sério em algo sem me achar tolo.
andarilho da vida - príncipe jamais de novo.

2 comentários:

  1. Incrível,compartilho do mesmo sentimento.As melhores coisas da vida está nas coisas simples e as melhores mudanças foram pessoas que admiravam essa simplicidade...Muito além das gaiolas que somos aprisionados, invés de sermos ensinados a voar somos ensinados a não usar nossas asas...Muito bom seu texto !!!! Com certeza faz pensar sobre ter a coragem de viver.

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    1. Eu me sinto inexplicavelmente bem quando um anônimo como você aparece por aqui pra conversar com meus textos e comigo.
      Obrigado!

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