A máquina de escrever cheira a literatura, carregada de significado com suas teclas gastas, mas sempre recentes, esperando para serem expostas num magnífico romance ou suspense. O barulho das teclas soa como a poesia, e retumba até o teto deste quarto sujo, fazendo zig-zagues e despertando do sono cada neurônio jovem e curioso; cada neurônio idoso, que se esforça para relembrar antigos tempos.
As suas teclas formam as palavras. Todas elas estão ali. Me convidam a escrever, relatar e dizer-lhes tudo, dando ao final de cada linha, um belo e sonoro 'plim!' aprovando minhas idéias tolas, ou apenas negando-as, sendo educada e cordial, não querendo discordar de mim; que bela dama. As letras batem com força no papel -fap, fap, fap-, que gira, contorna, vai e vem, num ritmo quase erótico; a linha entre o prazer de escrever e o amor à leitura.
Agora, saturada das metáforas, cospe as folhas de papel, e se recusa a escrever outra vez. Não quer me servir, fria e cruel senhora das letras; já cansada. Ignora as palavras que meus dedos gotejam, fazendo delas todas apagadas e disformes, desalinhadas e sobrepostas. Me nega sua fita de tinta e suja todos os meus dedos em evidente objeção.